O racha que abalou mas não destruiu a Irlanda em 2002

quarta-feira, 12 de junho de 2019

O racha que abalou mas não destruiu a Irlanda em 2002

O futebol não é particularmente forte na Irlanda. Com um campeonato nacional de nível extremamente baixo, cujos públicos sequer competem com os de futebol gaélico, o apelo pela seleção nacional acaba sendo grande. É quando se reúnem os 23 representantes do que se tem de melhor que o futebol irlandês ganha alguma relevância. Pode-se, pois, imaginar o furor que a disputa de um Mundial provoca no país — igualmente, é fácil notar a raiva diante de um racha que pôs em xeque o destino do Green Army na principal competição do planeta.

Roy Keane Mick McCarthy
Foto: Reuters/Arte: O Futebólogo

Por três vezes quase


Se o início dos anos 1990 foi glorioso para os irlandeses, o que se seguiu foi um tanto quanto sofrido. Depois de disputar as Copas do Mundo sediadas em Itália e Estados Unidos da América, em 1990 e 1994, a equipe começou a bater na trave. Primeiro perdeu a classificação à Euro 1996, subjugada nas eliminatórias por um promissor time de Portugal. O insucesso conduziu à saída do treinador Jack Charlton, o mais importante da história do país — esteve no comando desde 1986.

Seu substituto foi Mick McCarthy. Ex-zagueiro do selecionado verde, o defensor havia encerrado sua carreira nos gramados em 1992, pelo Millwall. Ele rapidamente pulou etapas, passando, imediatamente, ao posto de treinador no temido estádio The Den. Assim, após quatro anos assumiu a direção de sua equipe. Àquela altura, o time já contava com alguns dos jogadores mais importantes de sua história. Estavam lá Roy Keane e Denis Irwin — e logo chegariam Shay Given, Robbie Keane, Damien Duff...


Era um momento de transição, mas havia motivos para crer que o futuro podia ser bom para o futebol irlandês. A memória do passado feliz era ativada mediante a visão de um de seus símbolos no comando técnico. Em campo, os novos incorporados davam mostra de que estavam preparados para devolver ao Green Army um posto importante. 

Ireland Roy Keane
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo

Apesar disso, a equipe deu dois grandes azares. Nas eliminatórias para o Mundial da França, em 1998, ficou em segundo lugar, atrás de uma ainda forte Romênia, que simplesmente não perdeu uma partida sequer e sofreu apenas quatro gols em 10 encontros. Nos play-offs, parou diante da Bélgica, perdendo por 3 a 2, no agregado. 

Logo depois, a situação foi ainda mais desagradável. Nas classificatórias para a Euro 2000, deparou-se com as forças balcânicas da Croácia, terceira colocada na última Copa do Mundo, e da Iugoslávia, na fase de grupos. Conseguiu ser melhor do que os axadrezados, comandados por Davor Suker, mas não foram superiores à Iugoslávia de Pedrag Mijatovic. Novamente, seguiram aos play-offs. Outra vez, perderam. Agora, no critério do gol fora de casa. Na partida de ida, a Turquia marcou uma vez no empate por 1 a 1. Na volta, o zero não saiu do placar.

Keane vs. McCarthy


Foi com desânimo que os irlandeses receberam as notícias a respeito de quem seriam seus adversários na corrida por uma vaga na Copa do Mundo de 2002. Simplesmente ficaram diante daqueles mesmos portugueses de 1996, só que agora muito mais maduros e com o futuro melhor do mundo, Luís Figo, eleito em 2001. Além deles, estavam lá os holandeses, com Patrick Kluivert, Ruud van Nistelrooy, Clarence Seedorf…

A confiança era a menor possível. A batalha irlandesa seria, seguramente, por um improvável segundo lugar. Não obstante, o time lutou até o fim. Acabou ficando na desejada vice-liderança, mas com os mesmos pontos dos portugueses, superiores apenas nos critérios de desempate. Detalhe: ambos sem perder um jogo sequer. E, mais impressionantemente, com a Irlanda sofrendo apenas cinco gols em 10 partidas, o que deu a nota da força coletiva e defensiva da equipe, reafirmando o papel crucial de seu capitão, Roy Keane.

Nos play-offs, finalmente a sorte sorriu aos verdes. Estava prevista uma disputa entre um segundo colocado europeu e um postulante asiático. Os irlandeses foram os sorteados e eliminaram o Irã.

Mick McCarthy Roy Keane
Foto: RTE/ Arte: O Futebólogo

No entanto, luta à parte, o clima não era festivo no seio do Green Army. Roy Keane era o capitão e a grande figura do vestiário e não poupou críticas aos métodos de McCarthy. Comandado por Sir Alex Ferguson, no poderoso Manchester United, sabia como funcionava o futebol de elite. E, segundo ele, não era à moda irlandesa. Publicamente, Keane fez questão de sublinhar seu desagrado diante das escolhas táticas, técnicas, logísticas e operacionais feitas pela seleção.

Como o Mundial seria disputado em Coreia do Sul e Japão, a Federação Irlandesa decidiu que os treinamentos do pré-Copa aconteceriam em Saipan, nas Ilhas Marianas, no Oceano Pacífico. Conforme o capitão, o lugar não teria a menor condição de receber a preparação para um torneio daquele calibre. Após um treinamento, teve uma discussão acalorada com seu treinador e, na sequência, ofereceu uma polêmica entrevista ao Irish Times:

“Não faço ideia [do porquê escolheram Saipan para treinar]. Alguém veio aqui algum dia e achou que era bom. Eles pensaram que estavam fazendo um esforço, porque é realmente muito longe. Mas não observaram as coisas importantes. A viagem, claro. Um campo de treinamento [...] Sigo dizendo a todos que estamos aqui para nos preparar para uma Copa do Mundo [...] Você viu o campo de treinamento, sabe que não estou sendo uma primadonna [...] Viajando 17 horas [...] O hotel é bom, mas viemos aqui para trabalhar. Você imagina o porquê de os jogadores se machucarem? Bem, jogando em uma superfície como essa…”, disse.

Roy Keane estava preparado para abandonar a Seleção Irlandesa. Voltou atrás, mas esse direito já não estava em suas mãos. McCarthy o mandou de volta à Inglaterra: "Eu não posso e não vou tolerar que alguém fale comigo com aquele nível de abuso, então eu o mandei de volta para casa”, revelou em entrevista coletiva

A campanha até superou as expectativas


Sem Keane, a Irlanda não só estava sem seu capitão, mas carente de sua principal referência moral e técnica. Se o desafio de jogar o Mundial com ele já era difícil, certamente ficou mais complicado, mesmo porque o ambiente não era bom. O Grupo E também oferecia problemas. Em que pese a presença da frágil equipe saudita, que perderia o jogo de estreia por 8 a 0, havia ainda as presenças de Camarões — que levava o poder de fogo de Samuel Eto'o — e, sobretudo, da Alemanha.

Apesar dos pesares, a Irlanda conseguiu fazer seu duro trabalho. Atuando sempre à moda inglesa, no tradicional 4-4-2, empatou os jogos desafiadores e venceu o fácil — contando, ainda, com o iluminado Robbie Keane, autor do gol que igualou o placar contra os germânicos nos acréscimos da etapa final. Se não podia mais contar com a força de Roy, escolheu se fechar e apostar na velocidade de Robbie e Duff. 


Na sequência, acabou eliminada nas oitavas de finais, mas vendendo a derrota a um preço caríssimo. Contra a Espanha, de Raúl González, foi durona. Saiu perdendo, logo aos oito minutos de jogo, vendo Fernando Morientes ir às redes. Mas tinha uma estrela brilhando intensamente. Robbie Keane, agora de pênalti, garantiu outro empate tardio, aos 45 do segundo tempo.

A partida foi decidida na marca da cal e então se viu a resplandecência de outro astro: Iker Casillas, que defendeu duas cobranças. O saldo geral acabou sendo muito positivo. Mesmo sem Roy, a Irlanda foi à luta e caiu de pé, invicta. Segundo falou o Guardian naquele dia "a Espanha não merece sua vitória — eles tiveram muita, muita sorte ao conquistar um lugar nas quartas de finais. Por outro lado, a Irlanda ganha aplausos e mais nada".

McCarthy deixou a equipe em novembro de 2002. Já Roy Keane retornaria apenas em 2004 e para jogar pouco, abandonando, de vez, a Seleção Irlandesa após a fracassada campanha nas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006.

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