quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

Uma Santa campanha em 1975

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Fazia pouco mais de 60 anos desde que um grupo de estudantes, todos menores de idade, tomara a decisão de formar um clube de futebol, nas cercanias da Igreja da Santa Cruz, ali no bairro da Boa Vista, no Recife. Três anos antes, em 1972, aquele mesmo time recebera uma casa. Era sete de dezembro e o Brasileirão se aproximava de seu fim. No Arruda, o Santa Cruz carregava o orgulho de seu estado e região; fazia festa para um elenco que pararia ali, mas não perderia seu lugar no rol dos mais importantes do país. Vivia-se o ano de 1975.

Santa Cruz 1975
Foto: Arquivo DP/DA Press/Arte: O Futebólogo


Superando a ressaca


O Santa Cruz chegou ao ano de 1975 sofrendo com os efeitos de uma ressaca indesejada. Depois de obter o pentacampeonato pernambucano, entre 1969 e 1973, o time da Cobra Coral foi vice-campeão em 1974 e sequer disputou a finalíssima daquele ano, vencida pelo Sport. O certame estadual terminara em 6 de agosto para o Santa, com uma nota positiva: goleada contra o América, 6 a 0. No entanto, não foi o suficiente para ignorar o fato de que não chegou à decisão.

Para a disputa do campeonato nacional, o time trocou de comando, com a chegada de Paulo Emílio. O treinador mineiro havia acabado de conquistar o Campeonato Carioca com o Fluminense, mas os cariocas decidiram mudar de direção. Segundo o comandante, em entrevista à Folha de São Paulo, “o Francisco Horta, presidente do clube, foi o patrão, tinha todo o direito de demitir o empregado. Ele disse que o clube precisava de uma ‘estrela internacional’, alguém mais famoso do que eu para dirigir os jogadores famosos que estava comprando”.

Melhor para o Santinha, que o abordaria já com o campeonato em andamento. Paulo era um velho conhecido da Poeira, como ficou conhecida a torcida do clube, cuja base, desde as origens, esteve ligada às camadas mais populares da sociedade recifense. Em 1973, era o treinador do time no título estadual, tendo trabalhado com alguns dos nomes que reencontrou em 1975 — gente como Givanildo. Apesar disso, havia mesmo um período de instabilidade para ser deixado para trás. E o início de Brasileirão não foi dos melhores para o Santa Cruz. 

Givanildo Oliveira Santa Cruz
Foto: Arquivo DP/DA Press/Arte: O Futebólogo

Com um daqueles formatos bizarros e característicos da época, o torneio era dividido em três fases de grupos, semifinal e final. A princípio, 42 times foram dispostos em quatro grupos: A e B com 10 clubes; C e D com 11. Os cinco primeiros de cada um avançavam a outros dois grupos de 10 equipes. A seguir, passariam os seis melhores de cada um, aos quais seriam adicionados mais quatro clubes, vindos de uma repescagem disputada pelos 22 que ficaram pelo caminho na fase inicial. Os 16 finalistas se digladiariam por quatro vagas, novamente separados em dois grupos. A dupla melhor colocada de cada um avançaria às semifinais. O primeiro de um lado enfrentaria o segundo do outro, em jogo único. Daí, sairiam os finalistas.

Em um primeiro momento, a campanha do clube pernambucano esteve próxima daquilo que era a expectativa inicial: a mediocridade. Na fase inicial, o Santinha ficou no Grupo C. A campanha foi bem fraca, com o clube se classificando no apagar das luzes, em quinto. Não era um grupo fácil, mas alguns resultados foram realmente ruins. A Cobra Coral perdeu na estreia para o São Paulo, 2 a 1, em casa. Perderia também para Internacional e Desportiva-ES. Ficaria apenas no empate com Vasco, Goiás, Bahia, CEUB-DF e com o rival Sport. Venceria só o Americano de Campos, o Náutico e o CSA.

Um desses jogos deu o tom do que era o torneio do time até aquele momento. No dérbi contra o Sport, ao final dos primeiros 45 minutos, o placar sinalizava 3 a 3. A arquibancada não hesitou na busca por um culpado para aquele placar bailarino: Jair, o goleiro baixinho (1,72m). Até ali, aliás, Paulo Emílio não estava no comando, entregue ao auxiliar Amauri Santos. Sem saber o que fazer, o chefe ouviu a torcida e colocou o arqueiro reserva, Gilberto. Essa disputa, inclusive, se tornaria uma das grandes narrativas daquela campanha.

Tranquilidade para o bote


Cambaleando ou não, o Santa Cruz chegou à segunda fase. E logo na primeira partida deu indícios de algo havia mudado. Os pernambucanos viajaram a Belo Horizonte, para enfrentar o Cruzeiro, um dos favoritos ao título. À sua maneira, seguraram o ímpeto celeste. Viram Zé Carlos abrir o marcador, mas não se afobaram, buscando o empate, com Mazinho. Aliás, na surdina o time conseguiu outro bom resultado na sequência. Venceu o Corinthians por 1 a 0, outra vez com gol de Mazinho. Tranquilo. Foi nesse sentido que relatou a revista Placar, em 17 de outubro daquele ano: 

“O Santa se serviu: atacava e atacava. Até porque, no desespero, o Corinthians se livrava da bola de qualquer maneira [...] tentou mudar no segundo [tempo], através de Vaguinho. Mas sua calma durou pouco. Aos 10, Mazinho cabeceou firme: 1 a 0 [...] Depois, o Santa Cruz tratou de segurar a vantagem na base da cabeça fria. O que, por sinal, já havia feito no meio de semana, quando deu excelente prova de maturidade no Mineirão”.

A saga tricolor seguiu bem. Na terceira rodada, vitória fora de casa contra o Coritiba: 1 a 0; de volta a Recife, empate sem gols contra o Guarani; e, outra vez em seus domínios, triunfo contra o Atlético, 2 a 0. Então, na sexta rodada veio a confirmação de que um sonho que antes não passava disso, estava se realizando. 

O Santa viajou a São Paulo, para enfrentar o Palmeiras, o bicampeão nacional de 1972 e 1973. Na marra, levou a melhor: 3 a 2. Lula, que mais tarde passaria a ser lembrado como Lula Pereira, Volnei e Pio marcaram seus gols, com Mário e Nei descontando para o alviverde.


No entanto, é difícil pensar em uma equipe de excelente campanha no Campeonato Brasileiro e que não tenha sofrido instabilidade no curso do certame. Os torcedores do Santa Cruz podiam até pensar que já haviam vivido o pior na fase inicial, mas outra instabilidade era aguardada. Em casa, o time perdeu para o Flu, 1 a 0. E depois apenas empatou com o Tiradentes-PI. Naquela altura, a Placar bem que tentou avisar: “O Santa que se cuide”. Porém, ele não se cuidou e empatou outra vez, contra o Remo, em Belém.

A sorte é que naquele momento a luta era por um lugar melhor na tabela, já que a classificação já estava assegurada. Assim, viajou tranquilo para o Rio de Janeiro. Contra o América, retomou a boa forma, ganhando por 3 a 1. Volnei, Fumanchu e um jovem centroavante de nome Nunes foram às redes. Este, porém, seria visto poucas vezes naquela temporada. O time acabou avançando à terceira fase com a segunda colocação do Grupo 2.

Goleiro bom tem que ser alto?


Depois de perder a vaga para Gilberto, Jair precisou esquentar banco. E quase nem isso. Pouco impressionada com a forma do arqueiro, a diretoria do time chegou a requerer que o auxiliar Amauri Santos deixasse o ex-titular de fora do banco, garantindo que ele seria dispensado. Isso ocorreu às vésperas da partida contra o CEUB-DF. No entanto, o comandante não permitiu interferências na sua equipe. Embora reconhecesse que o momento pedia o afastamento de Jair dos titulares, ele ainda era visto como peça valiosa no seio do time.

A propósito, não é à toa que os ditados ganham esse estatuto. Dizem que o mundo dá voltas. Em 1975, certamente elas deram para Jair. Soberano, a partir de sua entrada, Gilberto se tornou um dos destaques do Santa. Até o jogo contra o Remo. Ali, sofreu uma contusão um tanto quanto curiosa para alguém de sua posição: distensão muscular. Imediatamente, Jair reassumiu a meta, garantindo que ela permanecesse imaculada e levando a equipe à classificação.

Jair Santa Cruz
Foto: Placar/Arte: O Futebólogo

“Era um jogo difícil e decisivo. Estava 0 a 0 e os companheiros procuravam me apoiar, principalmente Mazinho, Carlos Alberto Rodrigues e Renato Cogo, com quem eu já havia jogado no Grêmio. Tratei de fazer o que sempre fiz: procurei manter a cabeça fria diante de qualquer situação”, disse em entrevista à Placar.

Aclamado pelo torcedor desde o reencontro, Jair não mais abandonou as traves naquele ano. Na mesma conversa, ressaltou também a importância de um rival amigo: “É difícil encontrar um verdadeiro companheiro, um colega que procure ajudar tanto como o Gilberto. Se agora já voltei a ter paz com a torcida, em parte devo a ele”.

“SANTA, A MELHOR LARGADA”


Foi com esses dizeres, em caixa alta, que Placar aclamou aquilo que foi o pontapé inicial da campanha do Santa na terceira fase do Brasileirão. O time, que fizera a capa da publicação, estava em evidência e não era para menos. Pois, como indicado na reportagem “se fosse o Campeonato Gaúcho, o Santa Cruz já podia estar festejando o título”.

Na rodada inicial, os pernambucanos receberam o Internacional em um Arruda pulsante. Os colorados nada puderam fazer para evitar a derrota, por 1 a 0, sentenciada por Pio, em cobrança de falta. E, na rodada seguinte, foi a vez de a Cobra Coral dar o bote sobre o Grêmio, também em casa, dessa vez por 2 a 1, com Zé Maria e Mazinho, em dia de Jair. No sufoco do fim de jogo a torcida se manifestou “olha a hora, olha a hora”, mas quando ela chegou, a segunda vitória se tornou uma realidade.

Placar Santa Cruz 1975
Foto: Placar

O Santa Cruz parecia imparável, mesmo tendo empatado por 1 a 1 com a Portuguesa e perdido para o São Paulo, pela margem mínima. Na hora da decisão nacional, o time foi à desforra estadual. Se vingou primeiro do Sport, 3 a 1, depois do Náutico, 4 a 1. No jogo fatal, tudo podia acontecer. As vagas às semifinais estavam em aberto. O Santinha teria pela frente o Flamengo. Para os cariocas bastava um empate e o jogo estava marcado para o Maracanã.

O Urubu tinha a faca e o queijo na mão. Entretanto, aquela faca se revelou um cortante de dois gumes. Conforme Placar, o Fla “caiu na própria armadilha. Entrou em campo para impedir que o Santa impusesse o seu jogo — e o que se viu foi Givanildo e Carlos Alberto Barbosa dominarem o meio-campo”. No território de Zico, autor do gol de honra dos anfitriões, brilhou a estrela de Ramon, aquele mesmo consagrado com a artilharia do Brasileirão de 1973, com 21 gols. Ele foi às redes duas vezes, com Volnei completando o placar: 3 a 1.


Faltou o Deus de Ébano


Classificado em primeiro lugar, o Santa Cruz foi à semifinal, disputada em jogo único, com uma vantagem grande: decidindo em casa contra o Cruzeiro, vice-líder do outro grupo. Apesar disso, o confronto contra o Flamengo deixara uma sequela que não poderia ser ignorada. Tirara de combate aquele que ficou conhecido como o “Deus de Ébano”, Mazinho. Superar essa ausência era uma tarefa das mais complexas.

Alfredo, ex-meia do Guarani, foi o escolhido para a missão. No entanto, aquele que muitos apostavam se tratar do sucessor de Ademir da Guia não passou disso, uma aposta. Ainda assim, o Cruzeiro teve de enfrentar dois colossos naquele dia 7 de dezembro: o Santa Cruz e a versão moderna da Insurreição Pernambucana, já que, no Mundão do Arruda, foram vistas bandeiras de Náutico, Sport e América em apoio ao Santinha. Ou melhor, em defesa de seu estado.

Torcida Santa Cruz 1975
Foto: Arquivo DP/DA Press

A festa não demorou a começar. Sob os olhares de Oswaldo Brandão, então treinador da Seleção Brasileira, Fumanchu abriu o placar para o Santa, cobrando pênalti. No entanto, ainda na primeira etapa, um protagonista indesejado deu as caras: o árbitro Romualdo Arppi Filho. Pouco antes do fim dos primeiros 45 minutos, o volante Zé Carlos invadiu a área pernambucana e marcou o empate — seu impedimento sendo ignorado.

Na segunda etapa, Palhinha, outro grande destaque daquela disputa, se livrou dos zagueiros Lula e Levir Culpi e fez o 2 a 1. Ainda assim, o Santa foi à luta e, talvez, a consciência do juiz tenha pesado. Aos 28 minutos do segundo tempo, foi marcado outro pênalti para o Tricolor. Dessa vez, nada claro. De novo ele, Fumanchu, foi lá e conferiu: 2 a 2.

A pressão do Cruzeiro seguia grande, mas infrutífera, até que o treinador Zezé Moreira teve uma insight. Colocou o lateral direito Isidoro em campo, adiantou Nelinho no terreno e colocou Roberto Batata mais próximo de Palhinha. A ideia de que aquele jogo iria para a prorrogação não passou disso, uma ideia. 

Outra vez, foi Palhinha, assistido por Nelinho, o homem encarregado de decidir: 3 a 2. A festa dos 38.118 presentes virou enterro, apesar do reconhecimento à façanha. O Santa era o primeiro time nordestino a chegar a uma semifinal do Campeonato Brasileiro.


No dia seguinte, o Diário de Pernambuco estampou uma manchete triste: “Arruda fica em silêncio. Santa foi derrotado”. Já a Folha de São Paulo foi além da análise. Não deixou dúvidas a respeito de uma questão, a falta de Mazinho: 

“[O Cruzeiro] Dominava o meio de campo, trocava bolas sutilmente e explorava com calma o nervosismo do adversário, que se atrapalhava nas jogadas mais simples e esbarrava na má colocação de Alfredo, que atuava pela direita tentando inúteis tabelas com Fumanchu, enquanto que Ramon, o atacante mais perigoso do Santa Cruz, ficava isolado pelo setor esquerdo [...] a entrada Volnei no lugar de Alfredo foi fundamental. Ele correu mais, deu ânimo ao ataque”.

O discurso da derrota foi uníssono: “Ninguém poderá dizer que fizemos feio. Só perdemos no último instante, quando muitos já estavam cansados e contando com a prorrogação”, disse o artilheiro Ramon. “Nós até que fizemos demais!”, reforçou o treinador Paulo Emílio. 

Assim, um time épico, que teve redenção de goleiro, uma zaga forte, com Lula e Levir, um meio-campista excepcional, como era Givanildo, e um ataque veloz e eficaz, com caras como Mazinho, Pio, Ramon e Fumanchu, deixou o Arruda cabisbaixo, mas seguiu para a História.

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