quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

Os Intocáveis que levaram o Náutico à América

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O Brasil vinha se acostumando com a força do futebol do nordeste. Quando se anunciou o ano de 1967, Bahia e Fortaleza já haviam chegado à final da Taça Brasil, com o time soteropolitano, inclusive, superando o Santos, de Pelé, e se sagrando campeão nacional. Naquela altura, o Náutico também flertara com semelhante título, mas caíra nas semifinais; era o time d’Os Intocáveis e eles queriam mais.

Náutico Taça Brasil 1967
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


Com Duque na casamata, domínio estadual


Durante os anos em que existiu, a Taça Brasil teve o acesso limitado aos campeões estaduais. Portanto, os participantes formavam um grupo um tanto quanto exclusivo; uma legião de vencedores. Nesse sentido, a presença do Náutico nos certames dos anos 1960 foi incontestável. No decênio compreendido entre 1959 e 68, o Timbu venceu sete vezes o Campeonato Pernambucano, representando seu estado em quase todas as edições da Taça Brasil.

Em considerável porção deste tempo, o alvirrubro foi treinado pelo mineiro Duque — Davi Ferreira, nos documentos oficiais. Como atleta, fora um zagueiro apenas regular, passando por clubes como Cruzeiro, Fluminense e Vasco da Gama, sem destaque. Depois de um início de trajetória no Olaria, e de uma breve passagem pelo seu conhecido cruzmaltino, receberia sua primeira oportunidade como treinador do Náutico. Era o ano de 1964 e o time vinha de uma conquista estadual em 63. Naquela altura, nomes históricos do Timbu, como o goleiro Lula, Ivan Brondi, Nino, Clóvis e Bita, seu maior artilheiro de todos os tempos (e goleador máximo do Pernambucano entre 1964 e 66), já integravam o elenco.

Duque, com fama de “místico”, experimentaria sucesso imediato na carreira. No próprio ano de sua chegada, levaria o Náutico ao bicampeonato pernambucano, alcançando seu primeiro título como líder máximo dos vestiários. E aquela não seria uma conquista qualquer: a disputa de finais se revelou prescindível. Em 24 partidas — somados os dois turnos —, o clube venceu 19 vezes, empatando em outros cinco encontros. Vitorioso nas duas fases do certame, o Náutico levou seu segundo título pernambucano invicto (o primeiro desde 1952).

Duque Náutico Treinador
Foto: Placar/Arte: O Futebólogo

Em 1965, seria Antoninho o responsável por conduzir o alvirrubro ao tricampeonato estadual. Mais: nesse mesmo ano, o time faria uma espécie de apresentação formal ao país. Na Taça Brasil, depois de eliminar Remo e Vitória, triunfando na Zona Norte do certame, o Timbu bateria o Fortaleza, alcançando as semifinais nacionais. Ali, venderia caro uma eliminação para o Vasco, treinado por Zezé Moreira. Na partida de ida, empate por 2 a 2; na volta, derrota magra por 1 a 0. Bita ficaria com a artilharia do torneio.

Contudo, no ano seguinte, Duque estava de volta e o time seguia na mesma toada. No final de 1966, o Náutico seria coroado tetracampeão pernambucano, vencendo, outra vez, o rival Sport (em uma disputa melhor de três, que terminou em massacre alvirrubro, 5 a 1). Antes disso, todavia, um Rei veria seu trono ser fortemente ameaçado.

Ensaio final em 1966


Depois de ser semifinalista da Taça Brasil de 1965, o Náutico tomou gosto pela coisa. Estava claro que o time possuía o nível necessário para competir com qualquer clube do país. Em 1966, uma prova de fogo confirmou ser exatamente essa a realidade.

A partir da extraordinária campanha anterior, o Timbu entrou no torneio nacional já nas fases mais decisivas, com o funil estreito. Nas finais da disputa entre clubes do Norte e do Nordeste do país, colocou o Vitória para correr já na partida inaugural, 3 a 0. A volta, protocolar, seria marcada por mais um triunfo, mais apertado é verdade, mas que reforçou o poderio alvirrubro: 3 a 2.

A exibição contra o rubro-negro baiano levou o Náutico à fase final da Taça Brasil. Diante dele, estava um desafio enorme. A famosa Academia do Palmeiras, na altura liderada por Fleitas Solich, levava aos gramados jogadores como os Djalmas, Dias e Santos, o volante Dudu e um dos ídolos máximos do Verdão, Ademir da Guia. Tratava-se de um grupo recheado de selecionáveis. A eliminatória foi dura. No Pacaembu, o zero foi teimoso e não deixou o placar. Na Ilha do Retiro, a história se repetiu.

Náutico Palmeiras 1966
Foto: Arquivo Diário de Pernambuco/Arte: O Futebólogo

Foi preciso um tira-teima. Outra vez na capital pernambucana, Recife, Náutico e Palmeiras entraram em campo e, agora, aquele equilíbrio teria que ser desfeito, com o resultado pendendo favoravelmente para um dos lados. Bita, o homem-gol, o herói, o Homem do Rifle (como ficou conhecido), acordou. Os palmeirenses criticaram fortemente a arbitragem de Armando Marques, que expulsou Ademir e Djalma Santos, mas o placar de 3 a 0 para os pernambucanos se consolidou. Bita foi às redes duas vezes, Nino completando o escore. Estava chegando a hora da verdade.

Nas semifinais, o Náutico enfrentou o Santos. O Peixe não tinha apenas Pelé, mas também Carlos Alberto, Zito, Dorval e Pepe. Além disso, tratava-se do pentacampeão da Taça Brasil. Era o melhor time do país e tinha o maior jogador da história do futebol. A primeira partida sugeriu o óbvio: na Ilha do Retiro, Santos 2, Náutico 0. Não obstante, sabe-se que o futebol é muitas coisas, menos um jogo de obviedades. Há sempre espaço para o imponderável e um time treinado por Duque saberia disso, é claro. Ele tinha um plano.

Acervo: O Globo

“Quando peguei a escalação, senti a surpresa. Bita com a 5. Chamaram até de tática suicida colocar o ponta de lança de zagueiro. Mas eu conhecia Duque, que era cheio de malandragem”, contou o jornalista Lenivaldo Aragão, à época enviado especial do Diário de Pernambuco, conforme reproduziu o Superesportes. Em um mundo de raras imagens e pautado nos relatos radiofônicos, o Santos teria sido surpreendido: não era lógico o goleador adversário usar a camisa 5. Bita massacrou o Santos.

No Pacaembu, o primeiro tempo registrou dois tentos do artilheiro alvirrubro. Toninho descontou para os donos da casa, mantendo as coisas, em tese, interessantes. Na volta do intervalo, entretanto, logo aos cinco minutos da etapa fatal, Bita fez seu terceiro gol na partida. Toninho voltou a diminuir: 3 a 2. Miruca aumentou para os pernambucanos. Toninho, disposto a competir com Bita pelo protagonismo do jogo, fez o terceiro dos santistas. Mas, naquele dia, ninguém poderia ser maior do que Bita, que anotou um quarto tento, consolidando o triunfo pernambucano: 5 a 3. Aliás, o homem-gol também seria o artilheiro do certame, ao lado de Toninho, ambos com 10 gols.


Um terceiro jogo foi necessário e o sonho acabou. Ciente de que teria que dar o seu melhor, o Santos, outra vez no Pacaembu, goleou: 4 a 1. Porém, o Náutico continuou construindo em cima dessa derrota. Não era para menos: em dois anos, chegara a duas semifinais da principal competição nacional.

Náutico Santos 1966
Acervo: Diário de Pernambuco

O tombo dos gigantes mineiros


Em 1967, os frutos do trabalho de Duque estavam maduros. Não havia ninguém capaz de parar o Timbu em Pernambuco. No final do ano, o pentacampeonato estadual seria confirmado. Uma vez mais, não haveria necessidade de disputa de uma decisão. O Náutico venceria os três turnos da disputa. Em 16 partidas, somaria 11 triunfos e, simplesmente, não perderia — mais uma vez. Não por acaso, aquele time ficaria conhecido por uma alcunha elogiosa: Intocáveis. Diante disso, o foco principal era outro.

Novamente, o Náutico entrou na disputa da Taça Brasil já na decisão do mata-mata Norte-Nordeste. O adversário representava, de certa forma, uma surpresa. Nos últimos anos, o Fortaleza havia sido vice-campeão em 1960, e o Ceará terminara o certame de 1964 com a terceira colocação. Então, não existia dúvida de que o América cearense deveria ser levado a sério: havia suplantado gigantes do estado. O que se viu comprovou que essa era uma avaliação correta. O alvirrubro recifense venceu duas vezes, ambas na conta do chá, todavia: 1 a 0.

Então, começou o tomba-mineiros. Nas quartas de finais, o adversário do Náutico foi o Atlético Mineiro. O Galo era a única exceção entre os classificados para aquela Taça Brasil. Dado o fato de que o Cruzeiro, de Tostão, Dirceu Lopes e companhia, havia destronado o Santos no ano anterior, levantando o troféu nacional, classificou-se por deter essa láurea. O alvinegro, assim, avançou à disputa com o vice-campeonato mineiro.

Jornal do Brasil Náutico Atlético
Acervo: Jornal do Brasil

Na partida de ida, o Galo poupou boa parte de seu time titular e pagou um preço caro. Sem Grapete, Vanderlei Paiva, Buião, Ronaldo e Tião, não foi páreo para Bita e seus comparsas: 3 a 0, na Ilha do Retiro. No Mineirão, com o time completo, o Atlético deu o troco: 2 a 0. No desempate, uma igualdade favorecia os pernambucanos. Assim foi: 2 a 2. O feito também foi grandioso diante do fato de que a terceira partida foi disputada no Mineirão. A seguir, o desafio seria ainda mais duro. O Cruzeiro estava à espreita, com a mesma base de jogadores do ano anterior.

“Devemos ter cuidado porque o ataque deles é perigoso, pois todo mundo se mexe. Respeitamos o Cruzeiro, mas, medo não temos, porque o Náutico é um time de categoria”, afirmou Duque, ao Diário de Pernambuco, como recordou o ge. Outra vez, o Timbu, desfalcado de Bita, que se lesionara contra o Galo, foi ao Gigante da Pampulha. No confronto inicial, deu Raposa: 2 a 1. O troco veio na semana seguinte.

Náutico Cruzeiro 1967
Acervo: Diário de Pernambuco

Na ausência de Bita, Miruca assumiu protagonismo. O ponta direita marcou duas vezes que, somadas ao terceiro tento, registrado por Lalá, forçaram mais um jogo, a ser disputado ali mesmo, na Ilha do Retiro. O desempenho do Timbu provocou a ira do treinador celeste, Orlando Fantoni, que acusou os recifenses de atuarem dopados. As declarações apenas serviram para acirrar os ânimos para o acerto de contas de dois dias mais tarde. Na ocasião, Náutico e Cruzeiro empataram sem gols, o que foi suficiente para o alvirrubro avançar às finais e colocar por terra sua sina de jogar, jogar, jogar e morrer nas semis.

A vingança da Academia


O problema foi um só. Da outra semifinal, saiu o Palmeiras, um velho conhecido que chegava mordido após a eliminação de 1966. Naquele ano, o Verdão já havia vencido o Robertão e queria mais. Havia pelo menos uma diferença importante de um ano para o outro: no comando do ataque alviverde estava César Maluco, emprestado pelo Flamengo. Sua presença seria notada.

“Antigamente, apenas o eixo Rio-São Paulo existia. Quando muito, o Rio Grande do Sul tinha o que mostrar também. E enquanto essa condição existiu, o resto do país […] lhes rendeu a justa homenagem. O panorama atual é bem outro. Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Bahia evoluíram”, registrou o Diário de Pernambuco, antes da decisão.

Jornal Brasil Náutico 1967
Acervo: Jornal do Brasil

No Recife, o Palmeiras nem tomou conhecimento dos donos da casa. É bem verdade que Nino chegou a abrir a contagem para o Timbu, mas César, Zequinha e Lula decretaram o triunfo paulistano: 3 a 1. Pareciam favas contadas o título do Palmeiras, mas não seria tão fácil. Depois dos desempenhos dos últimos anos, dizer que foi surpreendente o que aconteceu na volta não refletiria a verdade. Mas havia quem estivesse festejando um título que ainda estava por conquistar.

“A gente já em São Paulo, um jornal da capital fez até um comentário desvairoso em cima do Náutico. Uma vez que eles viram a gente treinar no estádio do Pacaembu, disseram que a gente era um time desmotivado, que o Palmeiras não podia de maneira nenhuma perder aquela partida. Duque levou a matéria para a preleção, falando que a gente precisava dar uma resposta”, contou Ivan Brondi, ao ge.

Folha de São Paulo Palmeiras Náutico 1967
Acervo: Folha de São Paulo

No Pacaembu, o Náutico mostrou brio e venceu: 2 a 1. Dois dias mais tarde, em 29 de dezembro, quando as luzes do ano se apagavam, o Maracanã recebeu pernambucanos e paulistas para a desforra. O rápido time do Náutico entrou em campo com Lula; Fernando, Mauro, Fraga e Clóvis; Salomão, Ivan; Miruca, Ladeira, Nino e Lalá — um 4-2-4 típico.

Por fim, no Rio de Janeiro, debaixo de muita chuva, César Maluco e Ademir da Guia concretizaram o segundo título da Taça Brasil vencido pelo Verdão. Como consolo para o Náutico, além da campanha histórica, ficou a vaga para a disputa da Copa Libertadores de 1968 — algo que nenhum outro clube de Pernambuco havia conquistado até então.


O Timbu é o orgulho pernambucano na América


O ano de 1968 também seria marcante para a história do Timbu. “O hexa é luxo” se tornaria um lema do clube, que, em julho, alcançaria seu sexto título pernambucano consecutivo, feito nunca igualado no estado. O hexacampeonato seria marcado por 100 vitórias, 24 empates e parcas 16 derrotas, com o Náutico marcando 368 gols, e sofrendo apenas 106. Antes disso, porém, o clube viajaria pela América do Sul.

Náutico e Palmeiras, os representantes brasileiros na Libertadores, dividiram o Grupo 5 com os classificados venezuelanos — Deportivo Portugués e Deportivo Galicia. O Porco passeou, vencendo cinco e empatando apenas um confronto. E era suposto o Timbu avançar ao lado do alviverde. Os pernambucanos fizeram o dever de casa bem feito, vencendo os dois venezuelanos, ainda que tenham sido inferiorizados pelo Palmeiras.


Fora de casa, a situação seria menos positiva, mas, ainda assim, suficiente. O alvirrubro segurou o ímpeto do Deportivo Portugués, em Caracas, e o do Palmeiras, em São Paulo. Ao todo, deveria ter somado seis pontos e avançado de fase. Contudo, a Libertadores não seguia as recomendações mais recentes da FIFA — algo que até a CBD já havia adotado.

Boa parte dos campeonatos mundo afora já permitia que se fizessem duas alterações durante os jogos. Essa regra não valia para a Conmebol. No triunfo diante do Dep. Portugués, Duque promoveu uma dupla de mudanças e o Náutico perdeu os pontos do jogo para seu adversário. Foi o suficiente para ser eliminado. Houve todo tipo de reclamações à época, mas a decisão já estava tomada.

O último suspiro daquela geração viria, outra vez, na Taça Brasil, que se prolongou indefinidamente pelo ano de 1969. Como vice-campeão do ano anterior, e em meio a uma série de conflitos, que levaram, por exemplo, Palmeiras e Santos a abandonarem o certame, o Náutico entrou na disputa já nas semifinais. Em uma sequência de três encontros, foi suplantado pelo Fortaleza. No mesmo ano, perdeu a coroa pernambucana para o Santa Cruz, que emplacaria um pentacampeonato.

O fim da década de 1960 colocou o Náutico em compasso de espera. No decênio seguinte, o Timbu só venceria um Campeonato Pernambucano, em 1974 (evitando o hexa do Santinha), nunca conseguindo retomar sua supremacia estadual. O time também se afastaria das primeiras posições de competições nacionais. Esses fatos, entretanto, só realçam a grandeza do grupo que carregou o orgulho pernambucano nacional e, mais tarde, continentalmente, naqueles inesquecíveis anos.

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