quarta-feira, 29 de junho de 2022

Terceirona e Recopa para o Newport County em 1980-81

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As intrincadas e complexas relações entre os países que compõem o Reino Unido ocasionam toda sorte de consequências. No futebol, um caso peculiar é o que inclui clubes galeses no sistema inglês. Enquanto Swansea e Cardiff se notabilizaram ao disputar a primeira divisão, clubes como o Newport County vivem realidade mais dura, nos escalões inferiores. Nada disso, entretanto, privou-o das histórias de superação que marcam o esporte. Em 1980-81, a Europa foi obrigada a notar a presença dos Ironsides.

Newport County 1980
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo


Pegando o elevador


Ao final da temporada 1975-76, o caos pairava sobre Somerton Park. A 22ª colocação na quarta divisão — a última — obrigara o Newport a se candidatar à permanência no ano seguinte. Era a 10ª vez que tal procedimento, padrão à época, revela-se necessário. O pior é que nem mesmo havia certeza quanto ao pedido; o time de South Wales flertava com a falência. Não era sustentável a manutenção de um clube que, ano após ano, terminava o campeonato nas posições traseiras da última divisão profissional inglesa.

A situação não melhoraria muito nos anos subsequentes. A 19ª colocação (alcançada com uma arrancada impressionante na parte final da temporada), seguida de uma 16ª, tirou os Ironsides da rabeira, mas não os levaram a nada. Algo precisava ser feito. Foi. O Newport buscou um novo comandante no Sheffield Wednesday. Antigo internacional inglês nas categorias de base, Len Ashurst tinha um passado importante como atleta do Sunderland. Fora, inclusive, companheiro de equipe de Brian Clough. Aos 37 anos, era uma aposta arrojada, já que seus resultados não lhe conferiam qualquer distinção.

Porém, a chegada do treinador liverpuldiano impactou o clube. Em sua primeira temporada, 1978-79, elevou o patamar da equipe. O Newport terminaria a quarta divisão em oitavo lugar. Desconsiderando a quinta posição de 1972-73, tratava-se da melhor classificação dos galeses desde 1961-62, quando foram rebaixados desde a terceirona. O sucesso inicial auxiliaria a equipe nas batalhas seguintes. E, para 1979-80, Ashurst encontrou um reforço fundamental.

Len Ashurst Newport
Foto: South Wales Argus/Arte: O Futebólogo

O jovem John Aldridge atuava no futebol amador, representando o South Liverpool, quando foi descoberto. O atacante simbolizava, com perfeição, a complexidade das relações entre as Ilhas Britânicas. Nascera em Liverpool e mais tarde representaria a seleção irlandesa, tendo tido como ponto de partida uma equipe galesa. O impacto de sua chegada foi imediato. Nas 38 partidas de campeonato que disputou, o artilheiro de 21 anos anotou 14 tentos.

Com 61 pontos, cinco a menos que o campeão Huddersfield Town e três atrás do vice-campeão Walsall, o Newport conseguiu o acesso ao terceiro escalão. Curiosamente, somou quatro vitórias a mais do que o segundo colocado. Era um time que pouco empatava. E não foi fácil. A subida só foi garantida na última rodada, com vitória diante do citado Walsall, freando a investida do Bradford City, que permaneceu no quarto escalão, um ponto atrás.

A temporada 1980-81 prometia emoções para os Ironsides. Duas décadas depois, o Newport retornava à terceira divisão; pela primeira vez, disputaria futebol continental. Sim, futebol continental.

John Aldridge Newport
Foto: Peter Robinson/EMPICS/Getty Images/ Arte: O Futebólogo

No sistema inglês e jogando a Copa de Gales?


Não é preciso muito para compreender que o futebol doméstico disputado no País de Gales é de baixa qualidade. Historicamente, os melhores clubes e atletas galeses se formaram e alcançaram sucesso no sistema inglês. Um exemplo evidente vem da seleção nacional que disputou o Mundial de 1958, vendendo cara uma derrota para o Brasil nas quartas de finais. Os atletas que não representavam clubes ingleses vinham de Cardiff e Swansea. A exceção era John Charles, astro da Juventus e que, antes, projetara-se no Leeds United.

Assim, valorizando a Copa de Gales, os clubes do país integrados aos campeonatos ingleses costumavam ser convidados, assim como equipes efetivamente inglesas mas que se situavam em áreas fronteiriças, como Chester City, Crewe Alexandra, Hereford United e Shrewsbury Town. Estas, porém, em caso de título, não avançavam à Recopa Europeia como representantes do País de Gales. Por outro lado, equipes como o Newport gozavam dessa possibilidade.

Efetivamente, Cardiff, Wrexham e Swansea já haviam representado Gales perante o continente algumas vezes, quando se desenhou a temporada 1980-81. A melhor participação fora protagonizada pelo Cardiff. Em 1967-68, os Bluebirds superaram os irlandeses do Shamrock Rovers, os holandeses do NAC Breda e os soviéticos do Torpedo Moscou no caminho às semifinais da Recopa.

A queda viria diante do Hamburgo e na conta do chá. Em casa, os galeses empataram por 1 a 1; na Alemanha, obrigaram os anfitriões a uma virada emocionante, 3 a 2. No entanto, o Cardiff que carregou o orgulho galês era um time de segunda divisão inglesa, aproveitava-se de um estatuto incomparavelmente superior ao do Newport.

Em 1980, os Ironsides mostraram um potencial até então desconhecido, apesar do vice obtido em 1963. Prescindindo de qualquer replay, caminharam à final batendo Cardiff, Wrexham e Merthyr Tydfil. Na decisão, eram aguardados pelo Shrewsbury Town. Interessante notar que, embora disputando a segunda divisão da Inglaterra, o clube tinha mais tradição na Copa de Gales do que o Newport; exibia, em sua sala de troféus, quatro taças da competição, tratando-se, inclusive, do campeão vigente. O time treinado por Ashurst era, indiscutivelmente, um underdog.

Newport County Welsh Cup
Foto: Wales Online/Arte: O Futebólogo

Impulsionado pelo doblete de Tommy Tynan, velho conhecido de Ashurst dos tempos de Sheffield Wednesday, o Newport conquistou seu primeiro título de maior expressão. E, sendo galês, classificou-se para a Recopa Europeia de 1980-81.

A epopeia europeia


O sorteio europeu foi, inicialmente, generoso com os Ironsides. Na primeira fase, enfrentaram o Crusaders, da Irlanda do Norte. Em casa, passearam: 4 a 0, um dos gols anotado por Aldridge. Na volta, o zero não deixou o placar no que, como relatou o Guardian, foi o pior jogo já visto pelo treinador Ashurst. Os noruegueses do Haugar esperavam os galeses, após superarem os suíços do Sion.

Uma vez mais, o Newport conduziu a eliminatória sem sobressaltos. Em Haugesund, outro empate sem gols, com a partida sendo disputada em um terreno cheio de serragem (após fortes tempestades alagarem o gramado), deixou tudo em aberto. Somerton Park seria convocado para sediar a partida decisiva — que pode, tranquilamente, ser descrita como um massacre impiedoso. Os nomes de Dave Gwyther, Steve Lowndes, Aldridge, Tynan e Kevin Moore ganharam reverência, após um triunfo por 6 a 0.


O desafio da terceira fase seria, enfim, maiúsculo. 

O Carl Zeiss Jena era uma das principais forças da Alemanha Oriental. Tricampeão nacional, fora também oito vezes vice. Além disso, a equipe que enfrentaria o Newport contava com campeões olímpicos de 1976, como o goleiro Hans-Ulrich Grapenthin e o defensor Lothar Kurbjuweit. Para piorar, os germânicos haviam eliminado a Roma, remontando uma desvantagem de 3 a 0, e o campeão vigente, Valencia, de Mario Kempes. Os desafios já superados eram incomparavelmente mais duros dos que os encontrados pelo Newport, que sequer contaria com o lesionado Aldridge.

E isso tudo não valeu rigorosamente nada, após o apito inicial do árbitro norueguês Reidar Bjørnestad, contrariando a prepotência do treinador Hans Meyer: “Esperamos que o Newport jogue o seu máximo por pelo menos parte do jogo. Mas seu esforço não deve ser páreo para nossa habilidade e experiência europeia”. É bem verdade que até o ambiente encontrado intimidava.

“Ninguém sabia realmente o que esperar, eles estavam atrás da Cortina de Ferro naqueles dias. Era um lugar muito sombrio para ser honesto. Quando cruzamos a fronteira de oeste para leste havia um contraste marcante, tudo se tornou cinza e horrível. No oeste havia luzes de neon e tudo. A iluminação da rua estava mais ou menos desligada aqui. Havia muito poucos carros na estrada, apenas a polícia e os membros do comitê comunista tinham carros. Todo mundo estava em ônibus e bondes [...] As pessoas vinham até nós perguntando se tínhamos dólares, libras esterlinas ou jeans Levi's, então viam um policial e iam embora. Parecia haver polícia em todos os lugares”, relatou o treinador Ashurst, ao Wales Online.

Surgem Grapenthin e a trave


Com a bola rolando, o atacante Jürgen Raab abriu o placar na metade do primeiro tempo, após a defesa do Newport se atrapalhar para afastar uma bola alçada desde o lado direito do ataque alemão. Sem baixar os braços, Tynan transformou um chutão do meio-campo em gol, no último minuto da etapa inicial. Porém, aparentemente colocando uma pá de cal nas pretensões galesas, Raab se aproveitou de uma cobrança de escanteio no final da partida para marcar o segundo do Jena. Mas Gwyther tinha um plano. Aos 90 minutos, ousou quebrar toda a marcação germânica com dribles pela direita. A bola sobrou novamente para Tynan, que empatou o jogo. 

Os Ironsides voltavam para casa com um empate. “Newport, os peixes pequenos que jogaram como gigantes”, declarou o Times

No dia 18 de março de 1981, pela primeira vez em 21 anos, Somerton Park se viu completamente lotado. Sem ter nada a temer, o Newport buscava igualar os feitos do Cardiff nos anos 1960 — com muito menos recursos. A partida de volta teve um grande expoente: Grapenthin. O arqueiro germânico parou a avalanche ofensiva dos galeses. Foram cinco bolas salvas quase na linha. E, quando o arqueiro faltou, a trave salvou os alemães.


“Pensei que pelo menos duas de nossas chances estavam dentro”, pontuou o capitão Keith Oakes. O grande problema foi que, mesmo em desvantagem, os representantes de Jena capitalizaram suas oportunidades. Kurbjuweit acertou potente cobrança de falta. E foi só: 1 a 0. “Vi boas atuações de goleiros, e isso foi tão bom quanto o melhor que já vi”, falou o derrotado Ashurst. 

A aventura europeia do Newport acabara, enquanto a do Carl Zeiss Jena pararia na final, com derrota para o Dinamo Tbilisi.

“A volta foi um dos jogos mais unilaterais que já se viu [...] Duas horas antes do jogo, o campo estava lotado, com cerca de 18.000 pessoas. Ficamos arrasados ​​por não termos vencido, porque teríamos enfrentado o Benfica nas semifinais. Na época, a Recopa era de alto nível. Não imaginávamos que chegaríamos tão longe. Você pode assistir ao jogo no YouTube”, pontuou Lowndes, ao The Football League Paper.

Newport County Carl Zeiss Jena
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Embora amargo, o saldo era, evidentemente, positivo. Essa impressão seria reforçada pelo tranquilo 12º lugar na terceira divisão. Entretanto, os sonhos galeses não tardariam a se transformar em pesadelo.

Depois de terminar em quarto na temporada 1982-83, flertando com o acesso ao segundo escalão, o Newport se viu às turras com dívidas impagáveis. A situação se deteriorou ao ponto de, em 1986-87 e 87-88, o time cair duas vezes seguidas. Em fevereiro de 1989, já havia sido despejado de seu estádio. Apenas em 2013-14 retornaria ao quarto escalão inglês, reconstruindo sua história quase do zero.

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