A Copa turbulenta do Zaire em 1974

No dia 30 de outubro de 1974, o mundo voltou olhares atentos para a cidade de Quinxassa, a capital do Zaire, futura República Democrática do Congo. O campeão dos pesos-pesados do boxe e favorito à vitória, George Foreman, recebia Muhammad Ali. Era o ápice de um programação iniciada um mês antes, com o festival Zaire 74, acompanhado por mais de 80 mil pessoas. Os eventos, dizia-se, superavam a esfera musical e esportiva; buscavam promover integração entre africanos e afroamericanos e marcaram história. Essas, contudo, não foram as únicas vezes que o planeta foi obrigado a prestar atenção ao Zaire naquele ano.

Zaire World Cup 1974
Foto: Icon Sport/Arte: O Futebólogo

Ambiente de crescente prosperidade (?)


Fazia cerca de 14 anos desde que o país conseguira sua Independência da Bélgica, ocasião em que a Folha de São Paulo dedicou a capa ao acontecimento, ressaltando que o antigo Congo Belga, como era conhecido, era o 14º país africano a se emancipar do imperialismo europeu. 

A publicação destacava que 100 mil dos seus 14 milhões de habitantes eram europeus. Primeiro presidente do novo país, Joseph Kasa-Vubu asseverou que seu povo mostraria “o que pode o negro na liberdade”, em relato da AFP. Havia, contudo, uma ideia de que ali se erigiria uma “cooperação” entre Bélgica e Congo.

Os interesses na região eram variados. Em História geral da África, VIII: África desde 1935, relata-se que “o Zaire foi, durante certo período, a mais importante fonte de urânio do Hemisfério Sul e a prospecção de novas jazidas rapidamente pôs­‑se em marcha mais ao sul. A era nuclear acabara de surgir para o mundo e, para o melhor tanto quanto para o pior, a África Central e a África Austral dela participavam”. Essa era apenas uma das questões que desafiavam a consolidação do país.

Zaire Flag

Pouco após a Independência, o Congo Belga entrou em guerra civil. Um dos problemas essenciais dizia respeito às disputas tribais. O resultado foi a ascensão ao poder do general Mobutu Sese Seko, em 1965, no que pode ser considerado um bem-sucedido golpe de estado, apoiado militarmente pela Bélgica, os Estados Unidos e a França, precavendo-se da possível influência da União Soviética na região. 

Mobutu seria o responsável por liderar o país até 1997. Sob sua tutela, a nação se afirmaria como Zaire, em 1971.

Congo Belga Independência Folha de São Paulo
Reprodução: Acervo Folha

Um dos fatos inescapáveis que enreda a história foi a tortura e posterior assassinato do primeiro-ministro alçado ao poder após a Independência, Patrice Lumumba, que se aproximara dos soviéticos, quando, dias após a emencipação, a província de Catanga proclamou sua própria independência, apoiada pela Bélgica. Em setembro de 1960, Mobutu iniciou sua intervenção militar. Lumumba passou algum tempo em prisão domiciliar, vigiado pela ONU, antes de ser executado.

“Estamos sentados no quarto ao anoitecer, quando Kambia entra. A expressão de seu rosto era tal, que eu não gostaria de ver uma semelhante pelo resto da vida. Fala com voz contida: ‘Patrice Lumumba está morto’ [...] ‘Foram os belgas, foram os belgas, foram os belgas’”, narra o jornalista e historiador polonês Ryszard Kapuściński, em A Guerra do Futebol. Na altura, dos acontecimentos, ele se encontrava no país.

Em 1974, apesar de o cenário não ser propriamente calmo e livre de tormentas, a crise econômica que assolaria o Zaire ainda naquela década todavia não se precipitara. 

“Pode-se reconhecer o mérito de Mobutu, em razão de ele ter retirado o país do caos, criado pelas diferentes tentativas de secessão do Shaba, assim como, deve­‑se admitir o seu papel como edificador do Estado zairense”, prossegue o História geral da África, VIII, editado pelo historiador queniano Ali Al'amin Mazrui

Pode-se reconhecer, mas é preciso contabilizar os custos, e não apenas os quantificáveis.


A cena que se pintava tinha algumas das cores vivas da prosperidade e idolatria a Mobutu. Não foi o acaso que levou Foreman e Ali a Quinxassa, tampouco foi ele o responsável pelo sucesso do festival Zaire 74.

“Meus irmãos de sangue, bem-vindos a Quinxassa, Zaire, na África. Depois de quatro séculos de separação, tudo o que quero dizer é: quando vocês voltarem ao país dos brancos, por favor digam aos nossos irmãos que aqui existe um homem que luta pela dignidade de todos os negros, e esse homem é nosso querido Mobutu”, afirmou Abeti Masikini, artista referente do Soukous, a Rumba Africana — como recuperado pela revista PAM — The Pan African Music Magazine.

A propaganda pró-Mobutu vinha funcionando muito bem, obrigado. No álbum Zaire 74, lançado posteriormente, consta inclusive uma canção chamada Mobutu Praise Song (Canção de Louvor a Mobutu, em tradução livre).

Talvez não estivesse suficientemente óbvio, mas aqueles eram os melhores anos que o país viveria sob Mobutu, seu governante até a morte. Conforme observou o historiador Eric Hobsbawn, em A Era dos Extremos, “a última parte do século XX foi uma nova era de decomposição, incerteza e crise – e, com efeito, para grandes áreas do mundo, como a África [...] de catástrofe”.

A despeito disso, meses antes do festival e da luta, o país esteve concentrado em outra questão. O futebol estava em foco; o Zaire seria o primeiro país da África Subsaariana a disputar a Copa do Mundo.


A África Subsaariana vai à Alemanha Ocidental


Em 1974, alguma insurgência dos países africanos já havia sido ouvida pela FIFA. Entre 1934 e 70, primeiro com Egito e depois Marrocos, nenhum país do continente berço disputou a competição. Durante a quase totalidade deste período, não era disponibilizada aos africanos sequer uma vaga direta no certame. É evidente que essa situação causava mais do que meros incômodos, especialmente a partir dos anos 1960, conforme mais e mais países foram, ao menos em teoria, libertando-se das algemas do dominador europeu.

Em janeiro de 1964, quando já se sabia que a Copa do Mundo de 1966 seria jogada na Inglaterra, a FIFA determinou que o torneio contaria com 10 países europeus, quatro da América do Sul, um representante do restante da América e do Caribe e outro vindo de África, Ásia e Oceania. Isso mesmo. Os países desses três continentes teriam que se matar para conquistar uma vaga no Mundial.

A questão não foi aceita. Conforme relatos da BBC, o ganês Ohene Djan, membro do comitê-executivo da FIFA, demonstrou sua insatisfação. “Países afro-asiáticos lutando contra duras e caras eliminatórias por uma vaga é patético e insano”, disse o dirigente. A entidade ignorou os apelos e manteve sua determinação inicial. Sem ser ouvida, a Confederação Africana de Futebol não ficou de braços cruzados: sem ao menos uma vaga direta para o continente, sem africanos.

Ohene Djan Africa Boycott 1966
Foto: BBC/Arte: O Futebólogo

Para o referente jornalista esportivo etíope, Fikrou Kidane, o que se seguiu foi bem óbvio. “Era uma questão de prestígio. A maior parte do continente estava lutando por sua independência. A CAF tinha que defender os interesses e a dignidade da África”.

Outra questão que também gerou ruído foi o protesto contra a admissão da África do Sul, em pleno Apartheid, nos quadros da FIFA. Esse acabou sendo outro ponto de ruptura entre CAF e FIFA. Em 1954, esta havia admitido a associação dos sul-africanos. Expulsou-os em 1961 para trazê-los de volta dois anos mais tarde, sob a ultrajante promessa de que o país se apresentaria em 1966 com um time composto, exclusivamente, por brancos e na competição sequente, no México, com um elenco todo negro.

Para evitar uma debandada, a África do Sul foi novamente suspensa pela FIFA, em 1964, mas não foi o suficiente. O apelo africano só obteve êxito em 1970, quando africanos e asiáticos conquistaram uma vaga para cada. Quanto à África do Sul, a suspensão durou por mais seis anos, até a expulsão definitiva. Só voltou ao final do Apartheid.

O Zaire, ainda Congo Belga, não disputou as Eliminatórias para a Copa do Mundo de 1970, ocasião em que, na fase final, o Marrocos superou Nigéria e Sudão e devolveu aos africanos o direito de frequentar o maior palco do futebol internacional. Para a disputa seguinte, porém, os zairenses estavam preparados. No ano de nascimento de Claude Makélélé, um dos futebolistas mais famosos concebidos em Quinxassa, a nação mostrou o que seu futebol era capaz de produzir.

Zaire 1973 1974
Foto: Desconhecido/Arte: O Futebólogo

Pela primeira vez, 22 países e viram representados nas qualificatórias. Era o maior número até então, mesmo que dois tenham abandonado-a. Foram disputadas quatro fases, três eliminatórias e uma última em triangular. O Zaire goleou o Togo na primeira (4 a 0), enfrentando Camarões, a seguir. Já não havia facilidades. Cada um venceu uma das duas partidas por 1 a 0 e foi preciso um confronto de desempate, para o antigo Congo Belga avançar.

Na terceira fase diante de Gana, liderada tecnicamente por Ibrahim Sunday, o melhor jogador africano de 1972, outra vez o Zaire precisou mostrar sua melhor faceta. Perdeu o jogo de ida, 1 a 0, mas conseguiu a remontada demonstrando força. No estádio 20 de Maio, em Quinxassa, aplicou um 4 a 1.

É importante lembrar que, em 1972, o Mazembe chegara às semifinais da Copa dos Campeões da África, emplacando Bwanga Tshimen como o segundo melhor jogador africano. No ano seguinte, em 1973, o Vita Club conquistaria o primeiro título continental de uma agremiação do Zaire e Tshimen venceria o citado prêmio individual, com seu companheiro Kazadi Mwamba ficando com o vice. O país vivia um momento especial no futebol.


Para viajar à Alemanha, o Zaire precisou superar os já experientes marroquinos e a equipe de Zâmbia. Venceu os quatro jogos, ainda que o Marrocos tenha tentado anular um confronto, por alegadamente ter sido desmedidamente violento, com seu ídolo Ahmed Faras se lesionando. Nada feito. Pela primeira vez, a África Subsaariana estaria sob os principais holofotes futebolísticos do planeta.

Tudo está bem quando se está vencendo


Apesar da celebrada classificação, não dava para esperar muito do estreante. Quatro anos antes, o Marrocos mostrara que havia muito a melhorar, alcançando apenas um empate. O Zaire, é verdade, vinha em alta. Exercia domínio no futebol africano de clubes e também no âmbito de seleções, porque além de ficar com a vaga no Mundial conquistou a Copa Africana de Nações de 1974, meses antes da Copa.

O treinador da equipe era o mesmo que levara o Marrocos adiante em 1970, o iugoslavo Blagoje Vidinić. Parecia que tudo ia bem, mas como se sabe, não raro, as aparências enganam.


“Eu estava muito orgulhoso, e ainda estou, por representar a África Negra e Central em uma Copa do Mundo, mas tínhamos a crença equivocada de que voltaríamos milionários. Retornamos sem um tostão no bolso. Olhe para mim hoje, vivo como um vagabundo”, contou o lateral Mwepu Ilunga em 2014, à BBC.

O Zaire foi sorteado para o Grupo 2, momento em que já era possível imaginar que as coisas não sairiam muito bem para os Leopardos (apelido atribuído por Mobutu, que gostava do animal e o preferiu à alcunha anterior, Leões). Lá estavam Brasil, Escócia e Iugoslávia, equipes incomparavelmente mais tradicionais no cenário do futebol.

As coisas começaram a dar errado já na estreia, diante dos escoceses, apesar de o 2 a 0 não poder ser percebido como algo anormal. A própria Folha sinalizou que a Escócia jogou mal e foi beneficiada com um gol em que deveria ter sido marcado impedimento.

Folha Mobutu devolução joia washington post
Reprodução: Acervo Folha

Aliás, vale notar que, no mesmo dia em que o Zaire tombava pela primeira vez no Mundial da Alemanha Ocidental, Mobutu recebia de volta um diamante de oito quilates com que presenteara, em 1968, a esposa do senador norte-americano Hubert H. Humphrey. O caso veio à tona a partir de uma série de reportagens do Washington Post, que denunciava o recebimento extraoficial de presentes por parte de membros do governo e do Congresso, durante seus mandatos.

Para os Leopardos, o caldo entornou por completo entre o jogo diante da Escócia e a segunda partida, ante a Iugoslávia. “Soubemos que não seríamos pagos, então nos recusamos a jogar”, acrescentou Ilunga. Membros da federação de futebol do país surrupiaram as verbas que seriam destinadas aos jogadores, ainda que na época não se tenha dado a devida publicidade a tais fatos. 

O resultado veio dentro do campo. O Zaire foi penalizado com um vexatório 9 a 0.


Teorias conspiratórias diziam que o treinador do Zaire vendeu seus planos para seus compatriotas. Por isso, foi proibido de falar com a imprensa. Outras coisas estranhas rondam a partida. O técnico trocou seu goleiro por decisão técnica durante o jogo (quando estava 3 a 0), e o atacante Ndaye Mulamba, artilheiro da CAN daquele ano, foi expulso, supostamente, por dar um chute na bunda do árbitro colombiano Omar Delgado.

“Depois da partida, ele [Mobutu] mandou os guardas presidenciais nos ameaçarem. Fecharam o hotel para todos os jornalistas e nos disseram que se perdessemos para o Brasil por 4 a 0, nenhum de nós poderia retornar”, continuou. “[Antes] Mobutu era como um pai para nós. Quando nos classificamos, nos recebeu em sua casa e deu um carro e uma casa a cada um de nós”.

Sob pressão, Mobutu mostrara outra faceta e a derrota para o Brasil, por 3 a 0, levantou interrogações. A marca da partida acabou sendo um momento imortalizado como algo grotesco, digno de risos, tido como “inocência” daqueles “pobres africanos” tão “atrasados” — o dominador construíndo a narrativa. 

Para retardar a cobrança de uma falta da Canarinho, Ilunga correu para a bola e nela desferiu um bico estratosférico. Detalhe: a falta era perigosa e o placar já sinalizava triunfo brasileiro por 3 a 0 — com Rivellino, um especialista, postado para a cobrança.


“Fiz aquilo deliberadamente [...] eu não tinha razões para continuar me machucando enquanto aqueles que se beneficiaram financeiramente nos assistiam de suas coberturas. Conheço as regras muito bem, mas o árbitro foi tolerante e me deu apenas um cartão amarelo”, contou o protagonista, falecido em 2015, ao Guardian.

Era o fim da linha e, agora, o autocrata Mobutu Sese Seko precisava reconstruir a imagem de seu país perante o planeta. Mobutu era o Zaire e vice-versa — e o país fora humilhado na Alemanha Ocidental. 

Conta-se que manteve os jogadores reféns por quatro dias, sem, contudo, apostar na violência física. O presidente decidiu que não mais investiria em futebol. Era uma boa hora para lembrar como era bom o relacionamento com os Estados Unidos. Nada melhor para jogar aquela história para debaixo do tapete do que uma luta entre dois dos maiores boxeadores da história em Quinxassa. 

Ali venceu por nocaute, o que não deixa de ser simbólico.

Comentários

  1. Que texto bem escrito! Quantas informações importantes!

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  2. Textaço. Com muitas informações muito além do futebol

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