segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Seleções de que Gostamos: Rússia 2008

Após rememorar a fantástica Seleção Portuguesa de 1966, que conquistou o terceiro lugar do Mundial daquele ano e teve em Eusébio o artilheiro da competição, rememoro o time russo que surpreendeu na Euro 2008, com boas atuações e a revelação de talentos que nunca mais repetiram os feitos daquela competição.


Em pé: Akinfeev, Pavlyuchenko, Zhirkov, Kolodin, Bilyaletdinov, Ignashevich;
Agachados: Semak, Semshov, Anyukov, Zyryanov, Arshavin.

Seleção: Rússia

Período: 2008

Time base: Afinkeev; Anyukov, Ignashevich, V. Berezutskiy (Kolodin), Zhirkov; Semak; Zyryanov, Semshov (Bilyaletdinov), Saenko (Torbinski); Arshavin e Pavlyuchenko. Téc.: Guus Hiddink

Conquista: Terceiro lugar na Euro 2008

Após participar da Copa do Mundo de 2002, a Seleção Russa fracassou na missão de se classificar para o certame de 2006, na Alemanha. Na ocasião, viu Portugal liderar o Grupo 3 das Eliminatórias Europeias e a Eslováquia ficar com a segunda posição, que a levou à repescagem. Após a disputa da competição, buscando reverter esse quadro e garantir classificação ao Mundial de 2010, os russos foram atrás de um treinador tarimbado e que vinha de trabalhos positivos com Coreia do Sul e Austrália: Guus Hiddink.

Embora a missão maior fosse a classificação para a Copa da África do Sul, pelo caminho havia a disputa das Eliminatórias da Euro 2008 e, consequentemente, da própria Euro. Já ali se esperava, no mínimo, que o treinador obtivesse êxito, o qual foi alcançado, ainda que o objetivo final tenha ficado pelo caminho.

Sob vitoriosa direção

Hiddink foi o treinador que levou a Coreia do Sul, em 2002, à quarta colocação do Mundial daquele ano. Também conseguiu que a Austrália avançasse às oitavas de finais da disputa de 2006, ocasião em que sua equipe resistiu até os minutos finais — contra a Itália, os Socceroos seguraram a futura campeã até os acréscimos do segundo tempo, quando Francesco Totti deu números definitivos à partida, classificando a Squadra Azzurra.

Anteriormente, havia treinado a irresistível Seleção Holandesa de 1998, que, com a base de jogadores que levara o Ajax a seu último título europeu, em 1995, perdeu para o Brasil e ficou com a quarta colocação da Copa do Mundo da França. Quando os russos fecharam a contratação do técnico neerlandês não havia dúvidas: o experiente comandante chegava para colocar ordem na casa, promover a transição de gerações e levar a Rússia às glórias.

Com o tempo e o sucesso na Euro, ganhou diversos elogios. Ao site da UEFA, Sergei Semak disse que Hiddink é "um treinador sensato". Diniyar Bilyaletdinov, por seu turno, garantiu que: "as questões de organização deixaram de ser um problema desde que Hiddink assumiu o comando da seleção".

Atrás da Croácia, à frente da Inglaterra

Logo no sorteio dos grupos das Eliminatórias para a Euro 2008 ficou claro que a vida russa não seria nada fácil. A despeito das fracas presenças de Israel, Macedônia, Estônia e Andorra, Croácia ou Inglaterra (duas equipes que haviam disputado a Copa do Mundo de 2006) teriam que cair para a Rússia poder ascender. E foi o que ocorreu.

Ao final da disputa, a tabela de classificação mostrou que a Croácia passeou pelo grupo, somando 29 pontos e obtendo o recorde de nove vitórias, dois empates e uma derrota, apenas. A disputa dura aconteceu entre dois dos países protagonistas de vários dos principais eventos do século XX. A Inglaterra, de Wayne Rooney, Frank Lampard, Steve Gerrard e companhia, ficou pelo caminho.



Com uma vitória para cada lado nos confrontos diretos, fizeram a diferença os resultados obtidos contra os croatas. A Rússia empatou ambos e a Inglaterra os perdeu. Ainda que o time de Hiddink tenha perdido uma partida para Israel, foram os pontos obtidos contra a Croácia que diferenciaram as trajetórias de russos e ingleses. 

Nem Ibra, nem a campeã da última edição: o mata-mata é da Rússia

O sorteio da competição colocou a Rússia em maus lençóis, ao menos à primeira vista. Ainda que a Seleção Espanhola não viesse de período vitorioso, tratava-se de um adversário duro e que havia liderado o Grupo F das Eliminatórias. Por sua vez, a Seleção Sueca apostava suas fichas no talento de Zlatan Ibrahimovic e a Grécia era a atual campeã, tendo batido Portugal, em solo lusitano, na edição de 2004. Ainda assim, a Rússia não brincou em serviço.

Depois de ser despachada pela Fúria na partida de estreia, 4x1 para os espanhóis, com show de David Villa, os russos se recompuseram e brilharam. Vale dizer que na goleada, não foi possível contar com Arshavin, que cumpria suspensão. Em seguida, contra a retranca grega, coube a Konstantin Zyryanov aproveitar assistência do veterano Sergei Semak e rolar para as redes desprotegidas, já que o experiente goleiro Antonis Nikopolidis saíra da meta para tentar evitar conclusão do assistente russo. Por sua vez, perante a Suécia valeu a força do coletivo. O primeiro tento da vitória por 2x0 saiu dos pés de Roman Pavlyuchenko em trama bem construída, com trocas de passes e movimentação envolvente; o segundo em jogada de velocidade de Yuri Zhirkov e finalização de Andrey Arshavin.



Dando mostras de coesão e espírito, a Rússia mandou Ibra de volta para casa e também os gregos. Começava a ficar claro que se estava diante de uma geração especial de atletas, que sob o comando de Hiddink havia encontrado uma maneira de jogar. A base do time, formada por jogadores de CSKA e Zenit, estava entregando futebol de ótima qualidade.

Nada de Carrossel Holandês… Roleta Russa!

Líder absoluta do grupo apontado como o mais difícil da competição, a Holanda precisou superar Itália, França e Romênia para avançar às quartas de finais da Euro 2008. Estava claro que o desafio russo era enorme, uma vez que a Oranje havia destruído as finalistas da Copa do Mundo de 2006 (3x0 contra a Itália e 4x1 perante a França) e, com tranquilidade, deixara os romenos pelo caminho, 2x0. A geração de Arjen Robben, Wesley Sneijder e Robin van Persie, que viveria o auge no Mundial de 2010, já não era tão jovem e mostrara grande desempenho, ao lado de peças experientes que azeitavam a equipe, figuras como Giovanni van Bronckhorst, Edwin van der Sar ou Ruud van Nistelrooy.

Como esperado, o jogo foi duro, mas a Rússia se agigantou. Com tentativas de longa distância e apostas nos dribles do endemoniado Arshavin, a nação do Leste Europeu levava perigo à meta da Laranja Mecânica. Assim, no início do segundo tempo, Semak foi à linha de fundo e cruzou para Pavlyuchenko cumprimentar as redes e inaugurar o placar. No apagar das luzes, Sneijder colocou a bola na cabeça de van Nistelrooy e a partida foi para a prorrogação.

Quando já era disputada a segunda etapa do tempo adicionado, Arshavin, com impressionante fôlego e velocidade, foi ao limite do campo e cruzou para Dmitri Torbinski desempatar a partida. Ainda houve tempo para ele, Arshavin, aproveitar falha da cansada defesa holandesa e dar números finais à partida. Como franco atiradora, a Rússia foi superior e, jogando bonito, avançou às semifinais da Euro.



Derrota para a futura campeã e sequente esquecimento

A despeito de tudo isso, aquela competição estava destinada a ter uma campeã e não era a Rússia. Reencontrando a Seleção Espanhola, os russos nada conseguiram fazer para evitar que a Fúria chegasse à decisão. Valentes, não deram vida fácil aos espanhóis, que só saíram à frente no placar quando já eram decorridos cinco minutos da etapa final, com Xavi. Aos 73, Dani Güiza ampliou e, aos 82, David Silva sentenciou a eliminação dos russos. Quando o placar ainda sinalizava empate, Pavlyuchenko chegou a ter oportunidade de dar a vantagem a seu país, mas não conseguiu evitar o triste, porém honrado, final de sua trajetória.

Pior que isso foi o azar da Rússia na sequência da Euro 2008. Dividindo o Grupo 4 das eliminatórias para o Mundial de 2010 com a Alemanha, foi vice-líder, ficando atrás do escrete germânico e à frente de Finlândia, País de Gales, Azerbaijão e Liechtenstein. Foram sete vitórias, um empate e duas derrotas, justamente nas partidas contra a Nationalelf. Assim, classificou-se para a repescagem, enfrentando a Eslovênia.

Quando mais se esperava que aquela geração de talentos de 2008 levasse a Rússia de volta à Copa do Mundo, os eslovenos surpreenderam. Até perderam fora de casa, mas marcaram um tento que se provou crucial, 2x1. Na volta, o 1x0 foi suficiente para, no critério do gol marcado fora de casa, os russos ficarem em casa. Depois da Euro 2008, aquele time talentoso nunca mais foi o mesmo, ainda que os grandes destaques da equipe tenham se mudado para centros maiores do futebol.

Arshavin foi ao Arsenal, Zhirkov ao Chelsea, Pavlyuchenko ao Tottenham e Bilyaletdinov ao Everton. Nenhum deles, contudo, foi muito bem-sucedido, assim como não voltariam a mostrar a qualidade de 2008 com a seleção de seu país.

Um grupo que mesclou experiência e juventude

Naquele já distante ano de 2008, a meta russa já era defendida por Igor Akinfeev, então um jovem de 22 anos. No entanto, a despeito da idade, o arqueiro já era titular do CSKA desde os 17 , acumulando muita experiência apesar da juventude. Na Euro não chegou a ser um dos grandes destaques de seu país, mas cumpriu seu papel decentemente. É um dos atletas que mais vezes já envergou a camisa da seleção de seu país, tendo superado a marca das 100 internacionalizações.

Pelas laterais, Guus Hiddink contava com muita força ofensiva. Pelo lado direito, Aleksandr Anyukov foi uma alternativa sempre presente no campo de ataque, não por acaso colaborou com duas assistências, nas cinco partidas disputadas pela Rússia. Por sua vez, o flanco canhoto contava com a referência de Yuri Zhirkov. Polivalente, sendo capaz de exercer com qualidade qualquer função no lado esquerdo do campo, era um motor e arma importante. Na competição, proveu também uma assistência.

A defesa central era pesada, mais muito firme e séria. Outro jogador vindo do CSKA, Sergei Ignashevich era a principal referência do setor, um jogador fisicamente forte, bom no jogo aéreo, porém lento. Sua companhia acabou sendo variada durante o certame europeu. Embora Guus Hiddink tenha demonstrado muito apreço por Denis Kolodin, beque também duro que atuava no Dynamo e possuía um chute poderosíssimo de longa distância, algumas circunstâncias (bem como o entrosamento trazido do CSKA), levaram-no a optar pela escalação de Vasili Berezutski, outro atleta de similares aptidões em relação aos seus concorrentes.

Na meia cancha, postado à frente da defesa, Sergei Semak era o capitão e responsável por gerir o jogo russo. Preterido durante as Eliminatórias para a Euro 2008, foi chamado para os últimos amistosos antes da disputa, ganhou moral e vaga no time titular. Vital para o sucesso russo, foi decisivo contra a Grécia, provendo a assistência para o solitário gol da vitória de seu país. Tento este que foi anotado por Konstantin Zyryanov, outro meia da equipe, que habitualmente ocupava a faixa direita do meio-campo e era importantíssimo na transição de ataque e defesa, sempre apostando na parceria com Anyukov, fazendo valer ao máximo o entrosamento trazido do Zenit.

Mais centralizado, Igor Semshov era outro articulador da equipe, referência experiente - ao lado de Semak o único remanescente da disputa da Copa do Mundo de 2002. Além dele, atuou Ivan Saenko. Curiosamente, o russo começou sua carreira na Alemanha e foi um dos últimos a estrear pela seleção. Dentre os meias, era o mais ofensivo, habilidoso e veloz, sendo também lembrado pelo infortúnio que são as lesões. Assolado por elas, aposentou-se em 2011, aos 28 anos. Quem também teve importância fundamental, alternando a titularidade com Saenko, foi Diniyar Bilyaletdinov, jogador canhoto, habilidoso e muito voluntarioso.

No ataque, Hiddink depositava suas maiores esperanças. Infernal, Andrey Arshavin vivia momento especial em sua carreira. Endiabrado, parecia que tudo o que tentava dava certo. Era o jogador mais talentoso da equipe, driblando com muita eficiência e rapidez, tornou-se o mais temido jogador russo daquele Campeonato Europeu e deixou a competição valorizado. Seu parceiro, também não ficou muito atrás. Escolhido para substituir Aleksandr Kherzakov, que, em má fase, não foi convocado, Roman Pavlyuchenko foi o maior goleador russo da Euro 2008, com três tentos. Assim, assumiu também a vice-artilharia do certame, com um gol a menos que o espanhol David Villa.

Aquele time ainda contou com algumas alternativas importantes, como foi o caso de Dmitri Torbinski, meio-campista decisivo para a vitória da Rússia contra a Holanda, ou, ainda de Dmitri Sychev, atacante que começou a competição com a titularidade, na vaga do suspenso Arshavin, e entrou no decorrer de algumas partidas.

Ganhar daquela Seleção Espanhola que venceria, além da Euro 2008, a Copa do Mundo de 2010 e a Euro 2012, era uma verdadeira missão impossível. Mesmo com a derrota por 3x0, a Rússia fez papel honroso. Consagrou uma geração que acabou se perdendo com o tempo, mas que deixou a Inglaterra em casa, despachou a campeã Grécia e a Suécia de Ibrahimovic e, além disso, bateu com autoridade a talentosa Holanda. Com Hiddink no comando, os russos foram além do esperado, encantaram com bom futebol e ganharam lugar cativo na memória dos torneios europeus. Isso tudo a despeito do fracasso que se seguiu.

Ficha técnica de alguns jogos importantes nesse período:

Grupo E das Eliminatórias para a Euro 2008: Rússia 2x1 Inglaterra

Estádio Luzhniki, Moscou

Árbitro: Luis Medina Cantalejo

Público 84.700

Gols: ‘70 e ‘73 Pavlyuchenko (Rússia); ‘29 Rooney (Inglaterra)

Rússia: Gabulov; Anyukov, Ignashevich, V. Berezutskiy (Torbinski), A. Berezutskiy; Zyryanov, Semshov, Zhirkov; Bilyaletdinov, Kerzhakov (Pavlyuchenko) e Arshavin (Kolodin). Téc.: Guus Hiddink

Inglaterra: Robinson; Richards, Campbell, Ferdinand, Lescott (Lampard); Barry, Gerrard, Wright-Phillips (Crouch), Joe Cole (Downing); Owen e Rooney. Téc.: Steve McClaren

Quartas de finais da Euro 2008: Holanda 1x3 Rússia

Estádio St. Jakob-Park, Basileia

Árbitro: Ľuboš Micheľ

Público 38.374

Gols: ‘56 Pavlyuchenko, ‘112 Torbinskiy e ‘116 Arshavin (Rússia); ‘86 van Nistelrooy (Holanda)

Holanda: van der Sar; Boulahrouz (Heitinga), Ooijer, Mathijsen, van Bronckhorst; Engelaar (Afellay), de Jong; Kuyt (van Persie), van der Vaart, Sneijder; van Nistelrooy. Téc.: Marco van Basten

Rússia: Akinfeev; Anyukov, Ignashevich, Kolodin, Zhirkov; Semak; Zyryanov, Semshov (Bilyaletdinov), Saenko (Torbinski); Arshavin e Pavlyuchenko (Sychev). Téc.: Guus Hiddink

Semifinais da Euro 2008: Rússia 0x3 Espanha

Estádio Ernst-Happel, Viena

Árbitro: Frank De Bleeckere

Público: 51.428

Gols: ‘50 Xavi, ‘70 Güiza e ‘82 Silva (Espanha)

Rússia: Akinfeev; Anyukov, Ignashevich, V. Berezutskiy, Zhirkov; Semak; Zyryanov, Semshov (Bilyaletdinov), Saenko (Sychev); Arshavin e Pavlyuchenko . Téc.: Guus Hiddink

Espanha: Casillas; Sergio Ramos, Marchena, Puyol, Capdevilla; Senna, Xavi (Xabi Alonso), Iniesta, Silva; Villa (Fàbregas) e Torres (Güiza). Téc.: Luis Aragonés

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