segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Coen Moulijn, o Mr. Feyenoord

Antes de o grande Ajax, de Johan Cruyff e Rinus Michels, conquistar seu tricampeonato da Copa dos Campeões da Europa, o Feyenoord se confirmou o primeiro clube holandês a vencer o certame. Naquela altura, o time de Roterdã não contava com toda a fartura de talento de seu grande rival, mas possuía um ótimo time, com boas peças, muito organizado e taticamente disciplinado. E tinha também sua pitada de magia. Na ponta esquerda, Coen Moulijn já era mais velho, mas ainda tinha a capacidade de desequilibrar que marcou sua estada de 17 anos em vermelho, branco e preto.


Foto: Fotocollectie Anefo



O início do Mr. Feyenoord

Filho da própria cidade de Roterdã, Moulijn viu seu talento começar a ser desenvolvido em Oude Noorden, um bairro que abrigava grande parte dos trabalhadores da cidade e que até os dias atuais conserva fama de ser uma das vizinhanças mais problemáticas da Holanda. Em um primeiro momento, passou despercebido pelo radar do Feyenoord.

Foto: Desconhecido
Sua carreira como jogador começou no pequeno Xerxes, um clube nanico da cidade. Para quem o viu, as comparações com Garrincha e Stanley Matthews não são absurdas — embora atuasse pela esquerda, no lado oposto ao das referências brasileira e inglesa. Seu talento era enorme, lembrado em especial por um movimento em que simulava partir para fora, mas seguia em frente, iludindo o adversário.

Em 1954, aos 17 anos já era atleta profissional. E mesmo diante da fragilidade de sua equipe, que andava mal das pernas, destacou-se. Na temporada 1954/55, o Campeonato Holandês era disputado em formato peculiar: 56 equipes eram divididas em quatro grupos e os campeões de cada um deles disputavam um quadrangular para decidir o campeão. Na oportunidade, o Xerxes terminou o Grupo D na vice-lanterna.

Mas o Feyenoord, que também não fez grande coisa naquele ano — terminando na sétima posição do grupo C —, estava atento ao que estava ao seu redor e o levou para o estádio De Kuip. Começava uma trajetória de muitos dribles, gols e êxitos. Na década seguinte, os títulos voltariam a aparecer e o time se confirmaria no rol dos maiores do futebol europeu.

O incidente contra o Real Madrid

Depois de viver um hiato de 21 temporadas, o Feyenoord voltou a conquistar o Campeonato Holandês no ano de 1960/61. Naquela década, isso voltou a se repetir em 61/62, 64/65 e 68/69. Com isso, os de vermelho, preto e branco finalmente começaram a disputar a Copa dos Campeões da Europa. Com Moulijn (que também era considerado uma resposta ao poderio que o Ajax tinha com Sjaak Swart e Piet Keizer nas pontas), a equipe passou a atuar em solo continental.

A primeira experiência foi ruim, é bem verdade. Depois de eliminar o Göteborg, caiu na fase seguinte para o Tottenham. Mas na segunda, saiu da água para o vinho, com o time eliminando os suíços do Servette, e os húngaros do Vasas, os franceses do Reims, e caindo apenas diante do atual e futuro campeão Benfica, nas semifinais.

Na terceira vez, o time fez a pior campanha até aquele momento. Mas, verdade seja dita, a realidade foi dura demais logo no início. O time teve de enfrentar o Real Madrid já na primeira fase e não avançou. Apesar disso, ficou claro que aquele time e, em especial Moulijn, tinham enorme potencial. Um lance, em específico, simbolizou essa realidade. 

Coen partia pela esquerda quando recebeu um pontapé grosseiro do espanhol Vicente Miera, o lateral direito merengue. E revidou. A briga foi generalizada. O pau cantou, e foi necessária intervenção policial para arrefecer os ânimos. O Feyenoord parou por ali, mas o Real não hesitou antes de abrir a caixa de ferramentas para frear os holandeses. 


A grande glória que elevou o clube e colocou Moulijn na eternidade

A grande passagem de Moulijn pelo Feyenoord merecia um troféu de maior grandeza. E ele veio. Sob o comando do austríaco Ernst Happel, o clube amassou os islandeses do KR (16 a 2, no agregado), superou o Milan (2 a 1), deixou os alemães orientais do Vorwärts Berlin pelo caminho (2 a 1), superiorizou-se ao Legia, da Polônia, e, por fim, bateu o Celtic (campeão em 1967), por 2 a 1. Moulijn, que já tinha 33 anos anos, foi titular e peça chave para ajudar a parar o astro escocês Jimmy Johnstone.


Depois, no final daquele inesquecível ano de 1970, o time ainda conquistou o Intercontinental, batendo o Estudiantes de La Plata, de Carlos Bilardo, Juan Ramón Verón e do treinador Osvaldo Zubeldía.

Sua trajetória foi até 1972, e terminou com o cômputo de 487 jogos e 84 gols pelo clube. Propostas para deixar o clube não faltaram. Apesar disso, a única outra camisa que vestiu foi a da Seleção Holandesa, por 38 vezes (a primeira delas aos 19 anos), anotando quatro gols. Ele ficou conhecido como o Mr. Feyenoord.

O ponta brilhante e assistente sagaz faleceu em 2011. Em sua memória, o torcedor do Feyenoord fez uma festa impressionante no estádio De Kuip. Até mesmo os rivais do PSV, por meio de seu presidente de então, reverenciaram a memória desse imortal: “Ele era um ponta esquerda fantástico, um verdadeiro fenômeno do futebol. É uma grande perda para o mundo do futebol”

Driblar adversários era uma arte natural para Coen. Porém, nem toda a categoria do Mr. Feyenoord foi capaz de evitar os efeitos letais de uma hemorragia cerebral. Passou à eternidade.


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