terça-feira, 30 de outubro de 2018

Axel Witsel e o peso de uma grande contratação

É aos 29 anos que, pela primeira vez em sua carreira, o meio-campista belga Axel Witsel disputa uma das principais ligas do continente europeu. Agora, o atleta, de marcante penteado black power, confirma que o ótimo desempenho vestindo a camisa da Bélgica não é coisa de ocasião. Representando o Borussia Dortmund, reafirma as qualidades conhecidas pelos torcedores de Benfica e Zenit. Mas, mais do que isso, deixa claro o impacto que uma grande contratação pode levar a uma equipe.


Foto: EPA

Nos últimos anos, o Bayern de Munique reinou em soberania absoluta na Bundesliga. Com uma base forte, foi fazendo contratações pontuais, reparando lacunas, revitalizando determinados setores, mas não precisou fazer nenhuma grande reforma. Por outro lado, seu maior nêmesis nos últimos anos, o Dortmund, efetivou uma série de negócios, apostas, que nem sempre se pagaram — e houve casos em que existiu destaque tão grande que o clube não conseguiu evitar vendas.

A lista de negócios equivocados é extensa: Ciro Immobile, Matthias Ginter, Adrián Ramos, Gonzalo Castro, André Schürrle, Sebastian Rode, Emre Mor, Mikel Merino… Ao mesmo tempo, o time perdeu referências: Henrikh Mkhitaryan, Mats Hummels, Pierre-Emerick Aubameyang, Ousmane Dembélé (um dos negócios que realmente deram certo, convertendo-se em venda). A supremacia bávara foi brutal e os aurinegros perderam até o posto de grande ameaça.

Mas o futebol é cíclico. O início da temporada 2018/19 do Bayern é ruim e o Dortmund tem se aproveitado. Boa parte de seus êxitos têm contado com o papel fundamental de Witsel, uma contratação certeira; um cara de potencial e qualidade conhecidos, e que só tem confirmado tal estatuto no início de sua passagem. A completude do seu jogo impressiona, assim como a segurança que transmite aos seus companheiros.

O belga é o meio-campista de maior imposição física do elenco aurinegro. E alia a essa característica uma série de outros predicados que têm sido fundamentais à esquadra comandada por Lucien Favre. Dentre os jogadores de seu setor, é, por exemplo, quem tem o melhor desempenho na bola aérea. Tem vencido, em média, 2,1 duelos no alto. Por baixo, tem as médias de 1,3 desarmes e interceptações por partida. Parece pouco? Não se analisarmos o todo do jogo do Dortmund.

Foto: imago


Nesse início de temporada, o time tem tido 56% de posse de bola em média no Campeonato Alemão, sendo superado nesse quesito apenas pelo Bayern. Isso significa que na maior parte do tempo de seus jogos, tem a redonda em seus pés e, consequentemente, não tem a obrigação de recuperá-la. 

Por outro lado, torna-se fundamental a importância de um meio-campista de passe bom à frente da defesa, para iniciar a construção de jogo e auxiliar os zagueiros e circular a pelota. E Witsel tem registrado a marca de 92% de acerto. Detalhe: é o jogador da meia-cancha que mais carimba a bola em média, com 58,7 passes por encontro. Só os zagueiros Dan-Axel Zagadou, Manuel Akanji e Abdou Diallo, além do lateral Achraf Hakimi, tocam mais vezes.

“Ele [Axel Witsel] chegou [da Copa do Mundo] muito tarde. Por isso não começou o primeiro jogo da temporada [...] mas a sua integração ao clube está indo muito bem. Ele mostrou no campo que isso está indo muito bem”, disse o treinador Favre em setembro último. 

Witsel trouxe a solidez defensiva que faltou ao clube em tempos recentes e tem a técnica necessária para não ser apenas um destruidor. É fundamental para conter as pressões adversárias que, eventualmente, apresentam-se, e reciclar a bola, permitindo a melhor aplicação da ideia de jogo de seu treinador, com paciência e passes curtos. O atleta ajudou a formatar uma nova estrutura para o time e seu treinador.

Usualmente, a equipe tem atuado em 4-2-3-1, que, defensivamente, fecha-se em 4-1-4-1, com Witsel sendo o principal pilar à frente da retaguarda.

Foto: Bundesliga


Há tempos o Dortmund não fazia uma contratação do porte de Axel Witsel, que não custou tanto aos cofres aurinegros (€20MI), mas representou um desafio considerando os salários astronômicos praticados na China. E sua importância vai além desse aspecto, porque o clube procurou uma nova direção com Lucien Favre — após uma temporada de sucessivos erros, primeiro com Peter Bosz e depois com Peter Stöger — e o colocou no centro do projeto. 

Ademais, tendo uma zaga extremamente jovem (média de 23,5 anos que é distorcida pela presença do reserva Ömer Toprak, de 29), fez-se vital a tranquilidade que a experiência do meio-campista transmite. Aliás, tal influência também se faz presente em seu próprio setor, já que alguns de seus companheiros (Julian Weigl, 23, e Mahmoud Dahoud, 22), são também garotos.

Aliás, Witsel também já decidiu lá na frente. Marcou um gol vital contra o Greuther Fürth, pela Copa da Alemanha, outro contra o RB Leipzig (de grande beleza) e mais um na estrondosa vitória do time contra o Atlético de Madrid, na Liga dos Campeões, 4 a 0.

Tratá-lo como um achado é exagerado, porque se trata de um jogador titular de uma seleção semifinalista de Copa do Mundo. Mas sua contratação foi cirúrgica. Resolveu questões táticas, técnicas e mentais. Para ele, serviu de prova de sua enorme qualidade, já que carregou consigo dúvidas em seus períodos por Portugal, Rússia e China, seu último porto, países com campeonatos de qualidade inferior. 

Para já, Witsel e Dortmund vivem uma grande lua de mel.

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