Como Ravelli superou a desconfiança e se tornou ícone no Mundial de 1994

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Como Ravelli superou a desconfiança e se tornou ícone no Mundial de 1994

Goste ou não: o Mundial de 1994 foi um dos mais marcantes da história do futebol. Ele expôs os melhores do planeta a um país que não tinha o soccer em alta conta, lançando-os a um calor escaldante, mas foi palco de uma série de eventos inesperados. Lideradas por jogadores magistrais, equipes como Romênia e Bulgária brilharam. Apostando em uma ideia estranha a sua história, o Brasil levantou o caneco, ao mesmo tempo em que a Argentina, tal como em um tango, viu o drama permear sua participação — com o afastamento de Diego Maradona, que testou positivo no exame antidoping. Foi esse o contexto da reafirmação de um goleiro um tanto excêntrico e que protagonizou uma das cenas mais icônicas daquela competição: Thomas Ravelli.

Ravelli Sweden
Foto: Getty Images/ Arte: O Futebólogo


O futebol não sustenta


“O futebol é o trabalho mais divertido para mim. Eu sinto isso. É o meu hobby. Alguns jogam golfe. Eu faço isso. Eu amo isso”. Assim, o goleiro sueco Thomas Ravelli descreveu sua relação com o esporte bretão ao Los Angeles Times, logo após brilhar nas quartas de finais da Copa do Mundo de 1994, parando a Romênia e ajudando seu país a avançar às semifinais do certame. Importante que se diga, também, que foi nessa partida que o arqueiro se tornou o recordista de aparições pelo seu país, empatando, então, com Bjorn Nordquist. 

Ainda assim, ao contrário do que se poderia pensar, o futebol não lhe rendeu mundos e fundos. Apesar de ser lembrado como um dos grandes goleiros de sua geração, até aquele mundial marcante, ele não havia atuado fora do limitado futebol sueco. Ravelli já havia rompido as portas dos 34 anos (vindo a ser o sueco mais velho no Mundial de 1994) e via o fim de sua carreira se aproximar. À parte do futebol, dedicava-se às vendas de escovas de limpeza industrial, sobretudo para impressoras. Não é difícil entender o porquê.

Ravelli Brothers Goteborg Osters
Foto: Ravelli.se/ Arte: O Futebólogo
São desnecessárias grandes explicações no sentido de que o futebol sueco não oferece os melhores salários do mundo da bola. Não bastasse essa realidade, Ravelli atuou durante os 10 primeiros anos de sua carreira em um time modesto. O Östers, clube que o revelou, até desfrutou de certa notabilidade nos anos 1980, mas, ao fim e ao cabo, não era uma potência nacional — posto que cabe, acima de tudo, a Göteborg, Malmö, AIK e Djugardens.

Nem mesmo o fato de ter sido bicampeão nacional pela equipe (em 1980 e 1981) mudou esse quadro. Então, no fim das contas, o futebol devia mesmo se tratar de um hobby divertido para Ravelli, um descendente de austríacos com origens italianas e que não era propriamente um tradicional exemplar do homem sueco, que é estereotipicamente lembrado pelas virtudes físicas, o foco e o trabalho, mas não propriamente pela excentricidade e o senso de humor. 

Em um gigante, mas não na melhor fase


Eventualmente, Ravelli acabou se mudando para o Göteborg, em 1989. Pelo clube, aumentaria sua projeção nacional e conquistaria mais seis títulos suecos, ainda que já estivesse na casa dos 30 anos. Mas, pelas próprias peculiaridades da função, goleiros costumam ter carreiras mais longas do que jogadores de linha. Tal correspondeu à trajetória de Thomas. E o interessante é notar que tudo poderia ter sido diferente em sua vida, não fosse um jogo desastroso na Copa dos Campeões de 1981-82.

Ainda na primeira fase da disputa continental, o seu Östers enfrentou o Bayern de Munique. A eliminação era palpável, considerando que do outro lado estava um gigante mundial. Mas para Ravelli havia mais coisas em jogo. Conforme relataria anos mais tarde o Chicago Tribune, os bávaros estavam em busca de um substituto definitivo para Sepp Maier, aposentado em 1980, e consideravam a contratação do sueco.

Sverige Ravelli
Foto: Desconhecido/ Arte: O Futebólogo
Porém, o 5 a 0 imposto pelos alemães não causou boa impressão no que diz respeito a Ravelli, que ficou em seu país; eventualmente, o Bayern contratou o belga Jean-Marie Pfaff. De volta a Gotemburgo, o certo é que a chegada de Thomas ao clube local foi celebrada, mas não por muito tempo. Nos primeiros anos da década de 1990, parecia óbvio que ele já não era o mesmo dos tempos do Östers. 

“Houve um momento em que pensamos que teríamos que usar outro goleiro. Thomas mostrava preguiça nos treinos e não parecia sério”, disse o defensor Pontus Kamark, companheiro de Ravelli no Göteborg e na seleção, em 1994. 

Para qualquer um que o conhecesse, certamente não era a falta de seriedade que mais chamava a atenção — considerando o quão extrovertido podia ser —, mas a queda de forma. Pouco antes do Mundial, ele havia tido participação negativamente recordada em uma derrota de seu time para o Malmö, por 4 a 3, tendo concedido os quatro tentos na etapa final.

Renascido e estreitando laços com os EUA


“Um vendedor compra o sonho para a Suécia”. Com esse título, a edição do New York Times de 11 de julho de 1994 deixava claro que o bom Ravelli estava de volta. Chamado de “homem selvagem” e de “louco” por Ronald Nilsson e Kennet Andersson, respectivamente, o goleiro deu a volta por cima e alavancou os amarelos e azuis a uma brilhante campanha na Copa do Mundo norte-americana.

Ravelli Sweden Brazil
Foto: Juha Tamminen/ Arte: O Futebólogo
Em que pese o início não muito promissor dos suecos, empatando com Camarões, logo eles entraram nos trilhos, vencendo a Rússia e ficando em igualdade com o Brasil, para avançar aos mata-matas. Primeiro, eliminaram a Arábia Saudita e, depois, a Romênia, no que seria o jogo mais icônico da história de Ravelli. Liderada por Gheorghe Hagi, a equipe do Leste Europeu também fez um torneio memorável, o que ficou claro naquele encontro de quartas de finais.

O placar só foi aberto aos 79 minutos, com a Suécia saindo na frente. Aos 89’ veio o empate. Na prorrogação, os romenos chegaram a virar, apenas para ver Andersson empatar e levar a partida para os pênaltis. E, então, Thomas Ravelli entrou em ação, parando Dan Petrescu e Miodrag Belodedici. Nas semifinais, os suecos acabaram perdendo marginalmente para o Brasil, 1 a 0 (em jogo que também registrou imagem icônica com sorriso e dança do arqueiro, ao sair ileso de um ataque da Canarinho), mas ainda atropelaram a Bulgária, 4 a 0, para assegurar um terceiro lugar histórico. 


“É um pouco demais. Não estou acostumado com isso”, garantiu Ravelli à reportagem do Chicago Tribune, na piscina do hotel em que a seleção sueca se hospedou após o triunfo contra a Romênia. Contudo, para quem parecia acabado, os holofotes que se acenderam sobre o veterano goleiro pareceram adequados. Até porque um personagem tão peculiar acabaria rendendo boas histórias. “Você poderia entrar no vestiário e encontrar buracos nas suas cuecas”, contou o atacante Martin Dahlin, apenas para reiterar o quão singular o humor de Ravelli podia ser.

Após o Mundial, o goleiro deu uma guinada em sua carreira. Em 1994, foi eleito o segundo melhor goleiro do mundo e prolongou sua estrada até 1999, aposentando-se aos 40 anos. Ele permaneceu no Göteborg até 1997, quando retornou aos EUA. Por uma temporada, defendeu o Tampa Bay Mutiny, antes de voltar à Suécia para colocar fim à sua trajetória, onde tudo começou, no Östers. Durante muito tempo, foi o recordista absoluto de jogos pela Suécia, 143, tendo sido superado apenas por Anders Svensson, que alcançou 148 partidas.


“Muita gente pensou que eu estava acabado. Eu mesmo duvidava de mim [...] Se eu tivesse estado confiante demais, não teria sido capaz de jogar tão bem. O nervosismo e a pressão em mim mesmo me fizeram alcançar o sucesso”, falou Ravelli, 25 anos depois, em entrevista concedida aos suecos do Expressen, em julho de 2019. 

Por mais curioso que possa soar o fato de a tensão ter feito um personagem extrovertido se superar, parece mesmo ser o caso. Por mais brincalhão que fosse, Ravelli ainda era um ser humano, com acertos e falhas, mas enxergando no horizonte a possibilidade de redenção e, ao fim, agarrando sua chance.

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