terça-feira, 27 de março de 2018

Mario Kempes, o argentino mais valenciano de sempre

O futebol espanhol dos anos 70 era extremamente disputado. Para que se tenha uma ideia melhor formada a esse respeito, bastam uns poucos argumentos. Mesmo contando com sua famosa dupla holandesa de Johan, Cruyff e Neeskens, o Barcelona só conquistou um título nacional no período. O Atlético de Madrid levou dois; e o Valencia ganhou um bem no início da década. Foi, entretanto, o Real Madrid o grande vencedor da época. 


Foto: Getty Images


Em que pese esse fato, a partir da metade final do decênio, impulsionado pela eficiência d’El Matador, o Valencia conseguiu ser relevante na cena doméstica e internacional. Com Mario Alberto Kempes no melhor de sua forma, os Che levantaram algumas taças e o craque eternizou seu nome na história da equipe.

Do Instituto ao Valencia

Quando o camisa 10 se tornou o grande expoente da seleção argentina que conquistou sua primeira Copa do Mundo, em 1978, ele já vinha construindo importante nome. Se Diego Maradona foi considerado jovem demais para ir ao Mundial, Kempes já tinha provado que a 10 albiceleste lhe cabia bem.

Era jovem ainda (23), mas idade nunca havia sido uma questão problemática para o craque. Com 17 anos, em 1972, assinou com o Instituto, de Córdoba. Nos dias atuais lembrado como o clube que revelou Paulo Dybala, o Albirrojo contava, então, com uma safra especial. Além de Kempes, quem também dava seus primeiros passos no futebol ali era Osvaldo Ardiles.

Foto: El Gráfico
Dois anos mais tarde, mudou-se para o Rosário Central e continuou a dar passos largos rumo à fama e o alto nível. Quando chegou aos Canallas já havia inclusive feito sua estreia pela Argentina (foi selecionado para o Mundial de 1974).

Em seu segundo clube, estabeleceu marcas importantes. Em 1974, foi vice-campeão argentino e artilheiro da competição, com 25 gols.

Dois anos depois, em 1976, voltou a construir marca importante, com a artilharia do Metropolitano, anotando 21 tentos e carimbando seu passaporte para o futebol europeu. Ao se mudar para o Valencia (por um valor recorde à época), deixou para trás números históricos: em 123 jogos, balançou as redes 97 vezes - mal tinha chegado aos 20 anos.

Do Mestalla para o Mundo

Uma das imagens mais icônicas quando se pensa no Valencia são as famosas fotografias do Matador com a camisa listrada do clube, com o vermelho e o amarelo intercalados verticalmente - os longos cabelos e o olhar determinado de quem aguarda a oportunidade para ser algoz sendo outra importante marca. Há muita gente que afirma ter sido o astro argentino o maior jogador do clube em todos os tempos. Não é para menos.

Em sua primeira temporada na Espanha, o craque não conseguiu colocar os Che na disputa pelo título nacional, mas foi individualmente brilhante. Adicionou mais uma artilharia ao seu currículo, estufando as redes rivais por 24 vezes. 

O curioso é pensar que, embora fosse um goleador prolífico, Kempes não fazia o estereótipo do matador argentino. Ele não era como um Gabriel Batistuta, que se tornaria ícone nos anos 90. O camisa 10 jogava fora da área, abria espaços, tinha habilidade e, ainda, empilhava gols.

Em 1977/78, o que se viu foi mais do mesmo. Se o Valencia conseguiu a quarta colocação em La Liga, carimbando seu passaporte à disputa da Copa da UEFA, muito disso se deveu às 28 vezes em que o artilheiro da competição marcou. Pelo segundo ano consecutivo, o argentino foi o melhor marcador da Espanha.

Assim, Kempes confirmou que voltaria à Argentina em 1978. Não estava deixando o Valencia. Apenas disputaria a Copa do Mundo, sendo o único hermano a atuar fora de seu país. Na ocasião, César Luis Menotti descreveu suas qualidades - palavras que foram reproduzidas pela ESPN: “ele é forte, tem habilidade, cria espaços e finaliza com força. Ele é um jogador que pode fazer a diferença”.

A hora de ser campeão

E como fez diferença o Sr. Mario Alberto Kempes… Política e controvérsia à parte, o primeiro título mundial da Argentina é indissociável da figura de seu camisa 10. Depois de passar em branco na primeira fase, o atacante foi fundamental.

Dois gols contra a Polônia, outros dois perante o Peru (naquele que talvez seja o jogo mais polêmico da história das Copas) e mais uma doppietta, na final, contra a Holanda, consagraram seu país, e o alçaram ao posto de melhor jogador e artilheiro daquela edição.

Foto: Valencia CF


Mas o grito de campeão também atravessaria a garganta do torcedor do Valencia. No retorno à Espanha, Kempes participou da campanha que, doze anos depois, devolveu a Copa del Rey ao clube.

Depois de passar por Girona, Real Sociedad (que pouco depois ganharia o Campeonato Espanhol), Barcelona, Alavés e Valladolid, o clube precisou enfrentar o Real Madrid. A esquadra merengue tinha gente como Vicente Del Bosque, Uli Stielike e Santillana, mas o Valencia contava com um artilheiro iluminado. Kempes marcou duas vezes. E o 2 a 0 deu o título a seu time. O El País do dia seguinte foi cirúrgico:

“O Valencia se salva. É campeão da Copa porque conta com um jogador capaz de dar a nota aguda no momento chave. Kempes ganhou a Copa ao Valencia”.

A consagração definitiva

Com várias artilharias e um título a nível nacional, Mario Kempes já havia assegurado um lugar na história do Valencia em 1979/80. Já era um ídolo incontestável. Ainda assim, para que nunca fosse possível colocar isso em dúvida, a campanha seguinte consolidou tal realidade.

O título da Copa del Rey levou o Valencia à disputa da Recopa da UEFA, torneio que colocava frente à frente os campeões das copas nacionais da Europa (além do último vencedor do certame). Exceção feita à primeira eliminatória, não houve vida fácil para os Che.

Depois de atropelar os dinamarqueses do Boldklubben 1903, 6 a 2 no placar agregado, o Valencia teve de se aplicar para eliminar Rangers, Barcelona e Nantes e chegar à final. Por sua vez, o Arsenal bateu Fenerbahçe, Magdeburg, IFK Göteborg e Juventus para aceder ao cume da competição. Kempes teria que bater o grande goleiro Pat Jennings. Não conseguiu, mas o título veio mesmo assim.

O zero nunca deixou o placar. O faro artilheiro do argentino não foi capaz de dar a vantagem ao Valencia. Por outro lado, o talentoso Liam Brady também falhou na missão de elevar o Arsenal ao lugar mais alto do pódio.

Foto: Valencia CF


O jogo acabou decidido na marca penal. Kempes, o líder técnico da equipe espanhola, foi incumbido de cobrar o primeiro tiro. Perdeu, mas ganhou, porque Brady e Graham Rix também desperdiçaram suas oportunidades.

Na sequência, o Valencia disputou a Supercopa da UEFA contra o Nottingham Forest de Brian Clough. O agregado mostrou um empate por 2 a 2, mas um gol marcado fora de casa consagrou os Che, que levaram mais um título para casa.

Estágio em Buenos Aires e breve retorno a Valencia

Em 1981, Kempes voltou à Argentina para vestir as cores do River Plate e conquistar um título nacional. Porém, os Millonarios não conseguiram pagar pelos serviços do craque, que retornou ao Valencia um ano depois, permanecendo até 1984. Nesse meio tempo, jogou mais uma Copa do Mundo, a de 1982 - desta vez com a camisa 11, porque a 10, bem, a 10 pertencia a Maradona.

A partir de seu retorno, Mario não conquistou mais títulos ou artilharias. E a partir de sua saída do Valencia sua carreira entrou em descendente. Os dias de goleador foram ficando para trás, solidamente colocadas na memória.

Antes de colocar um ponto final em sua carreira, passou pelos modestos Hércules, First Vienna, St. Pölten, Kremser, Fernández Vial, do Chile, e Pelita Jaya, da Indonésia. Surpreendentemente, parou com 45 anos, com um registro final que supera os 300 gols marcados. 

El Matador acabou sendo uma alcunha precisa. Mario Kempes foi uma estrela, um artilheiro, um líder técnico e um ícone - em especial para o torcedor do Valencia, que viu seu time cair à segunda divisão na década de 80 e precisou esperar pela geração de Gaizka Mendieta para voltar a soltar o libertador grito de ¡campeón!

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