terça-feira, 20 de novembro de 2018

Atacando com outras armas

A narrativa do futebol holandês remonta ao final dos anos 60. Naquele momento histórico, o Feyenoord conquistou a Europa. Depois, viu seu grande rival, o Ajax, liderar o continente por três temporadas, o que culminou com o brilho da seleção local nas Copas do Mundo de 1974 e 78. Aquele time forjou a alcunha de Carrossel Holandês e consagrou um estilo de jogar elogiado por se fazer “Total”. Foi a primeira mostra de que o ideal estético, a beleza, seriam marcas do time alaranjado.


Arte: O Futebólogo


Claro, praticando o jogo, a equipe das terras baixas sempre pôde contar com atletas que incorporavam tal missão como dogma — mesmo quando a ideia não era tão fiel àquela proposta nos anos 70. Essa realidade foi de Johan Cruyff e Johan Neeskens a Wesley Sneijder, Arjen Robben e Robin van Persie. Inevitavelmente, passou por Ruud Gullit, os irmãos De Boer, Clarence Seedorf, Dennis Bergkamp. Para citar apenas alguns. Como dito, embora o belo tenha sido traído por algum pragmatismo circunstancialmente, o refino técnico foi quase sempre uma marca.

Saindo do buraco

E talvez tenha sido a incessante recuperação do passado que conduziu a Holanda a dias tristes. Sem beleza nem glória. A geração vice-campeã do mundo em 2010, envelhecida, deu seu último suspiro em 2014 e foi dando lugar a outra, nova e sem tanta distinção técnica. Inevitavelmente, os maus resultados se acumularam, culminando em dois fracassos históricos: as ausências na Euro 2016 e na Copa do Mundo de 2018.

A despeito disso (abusando de um clichê), o futebol é um esporte marcado por ciclos, de forma que dificilmente uma equipe vive o fracasso como uma regra. E desde a contratação do treinador Ronald Koeman, outro expoente histórico da Orange, a situação começou a melhorar, o que passa por uma proposta de jogo diferente. Ela pode até trair, em parte, o ideal holandês, mas trouxe de volta uma das seleções mais emblemáticas do planeta.

A tarja de capitão indica: há uma nova referência na Holanda. Desde que se mudou do Celtic para o Southampton, Virgil van Dijk vem se transformando em um dos melhores zagueiros do planeta. Técnico, de boa saída e tempo de bola, além de imperial pelo ar, vem em constante evolução. Custou caríssimo aos cofres do Liverpool, mas não foi apenas uma contratação, fez valer a palavra “reforço”. E Koeman, ciente disso e tendo sido seu treinador nos Saints, escolheu-o seu líder.

Foto: John MacDougall/AFP/Getty Images


“Ser escolhido o capitão da Holanda é algo muito especial e significa muito para mim”, disse o beque à Sky Sports britânica em março do presente ano. E o escolhido vem exercendo seu posto com maestria, sobretudo diante da grande missão que lhe foi imposta: garantir que uma série de jovens talentosos consiga alcançar seu melhor nível pela seleção. Curiosamente, as maiores apostas do momento não são jogadores de frente.

Adaptando-se ao presente

Matthijs de Ligt, Kenny Tete, Nathan Aké, Denzel Dunfries e, sobretudo, Frenkie De Jong são todos jogadores mais ligados à defesa e primeira construção das jogadas, embora muito bons tecnicamente. O primeiro e o último, ambos do Ajax, um de 19 anos e o outro de 21, são os que mais impressionam. Confortáveis com a bola nos pés, elegantes, de boa recuperação e progressão, são as maiores jóias da companhia holandesa (ambos pretendidos por meio mundo). Ao lado de Virgil, foram peças cruciais para o recente sucesso holandês. E não só eles.

Foi com alguma surpresa que Koeman decidiu dar a Marten de Roon, da Atalanta, um papel fundamental em sua equipe: o de limpa trilho. É dele a responsabilidade de trocar o óleo do carrossel e mantê-lo girando. Na disputa da Nations League, foi o meio-campista holandês que mais desarmou e interceptou bolas (além de ter sido o que mais fez faltas). Se não tem o talento de um De Jong, dá enorme suporte para que este possa deleitar os espectadores com seu melhor futebol. E há a figura de Georginio Wijnaldum.

Também um “faz-tudo”, o camisa 5 do Liverpool se confirmou outra importante referência para a equipe. Aos 28 anos, nos Reds encontrou seu auge técnico, treinado por Jürgen Klopp. Praticamente não erra passes, cobre longas faixas de campo, é calmo ao controlar a bola, aproxima-se com frequência do gol adversário… Não é um craque, como outrora foi um Sneijder. Mas é o perfeito coadjuvante. O gol marcado contra a Alemanha (em partida disputada em outubro), por exemplo, confirmou uma atuação bestial do meio-campista.

Foto: John Thys


Mais adiantados, os jogadores de que dispõem os holandeses têm suas qualidades, sim. Só não estão à altura dos craques do passado. Dizer que Memphis Depay ou Quincy Promes são maus jogadores está fora de cogitação, assim como os comparar com um Rob Rensenbrink ou Piet Keizer. Por isso, Koeman fez o que tinha de fazer para devolver protagonismo à Orange. Forjou um time de forte espírito coletivo e competitivo ao extremo. Nada brilhante e um tanto quanto pragmático (como também foi a geração do treinador no final dos anos 1980 e início dos 90).

Vencendo

O esquema tático aplicado segue a referência histórica: é o 4-3-3. Mas a bela estética fica em segundo plano (apesar do brilho dos jogadores dar as caras, não raro). 

Na Nations League, o time obteve duas vitórias e um empate, perdendo em uma ocasião. Quando precisou, entregou a bola ao adversário, para provocar seus erros e, então, cravar-lhe uma faca no peito. Na citada partida frente à Alemanha, o primeiro tento saiu da cabeça de Van Dijk, após cobrança de escanteio; depois, De Roon recuperou uma bola em saída ruim dos germânicos, e deu início a um contragolpe mortal de Promes que chegou aos pés de Depay. Por último, Daley Blind (outra referência crucial) recuperou uma bola e, enfim, apareceu o talento, na pessoa de Wijnaldum: 3 a 0.


Mesmo na única derrota, contra a campeã do mundo, a França, fora de casa, a Holanda vendeu caro o resultado: 2 a 1. Na volta, o time de Koeman fez aquele que foi considerado o melhor jogo da campanha, batendo os Bleus por 2 a 0, e provocando um mar de críticas ao treinador francês, que optou por Steven N’Zonzi, na vaga habitualmente preenchida por Paul Pogba. Ainda assim, mesmo nesse jogo, foram as falhas defensivas do rival que marcaram os tentos anotados pelos holandeses: a primeira de N’Zonzi no gol de Wijnaldum; a segunda de Moussa Sissoko, ao cometer pênalti em De Jong.

Já na partida decisiva, de novo contra a Alemanha, voltaram a ficar evidentes os equívocos da retaguarda alemã. Mas também ficou demonstrado que, ao contrário de tempos ainda recentes, esse time holandês está preparado para lutar. Os de laranja perdiam por 2 a 0 para a Alemanha (jogando mal), até o final do jogo. Mas aos 85, Promes acertou um chute indefensável e van Dijk, aos 90, como um centroavante, empatou a contenda, levando a Holanda à fase final da Nations League.

Depois de viver dias complicados, a Holanda parece estar de volta. Sem tentar ser o time dos anos 70 e sem poder apostar na qualidade individual de um gênio. Como um time organizado, que pressiona os adversários constantemente, tem alguns pilares individuais em que pode confiar, e que se aproveita, letalmente, das falhas adversárias.

4 comentários :

  1. De Room e Wijnaldum, foram as grandes sacadas do Koeman, torço pra que esse ciclo seja coroado com uma grande copa.

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  2. Enquanto isso nossa seleção retrocede com ' craques chineses'

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